13.4.18

Cara mais arredondada

Encontrei-a com a cara mais arredondada, de anjo de iluminura, os cabelos pintados de ouro oxidado com filamentos castanhos, os traços dos anos recortados sob os olhos, e a voz afiada, quase estrídula, como se passada numa pedra de grão fino. Há anos que não a vejo com ele, a quem já mal lembro, a não ser pela inquietação que me causava, um sinal de perigo iminente, como o que se sente à beira das falésias ou quando o céu da noite se ilumina com relâmpagos; recordo-me do carro grande com matrícula estrangeira que anunciava expediente e manhas velhas; da imponência da figura; da voz amadurecida em cascos de carvalho; do olhar em tom de mercúrio. Sem aviso, a ausência dele, e um reaparecimento fugaz, uma discussão breve e violenta, que presenciei de passagem. Depois, nada mais. Foi por essa altura que  começou a passar por mim ao fim da tarde com a roupa de ioga e um saco ao ombro, que transportava com passo rápido e sorriso breve e impenetrável. A partida dele marcou o início do exílio dela para um outro mundo; não sei se é a mesma, se é outra. Falamos da chuva e dos dias que passam depressa demais. Nunca perguntei por ele. Admirado ficaria se ela esperasse perguntas minhas. A ausência, como a morte, é a parte do futuro que pertence ao passado.