24.4.18

Espicaçar

«Tens que me espicaçar, estou muito cansado,» diz-me. O cansaço não tem balança, modo de comparação, escala sequer. Talvez eu esteja mais do que ele, penso, mas não lho digo ao telefone. Inspiro o ar fresco da tarde, tomo as rédeas às palavras e espicaço: a ele, a mim, por Deus, espicaço pelo passado e pelo futuro. Já que é para espicaçar — deixo de ser só eu: chamo a multidão ululante, espicaçante, que aguarda em mim. O cansaço que espere a sua vez.