22.4.18

O infinito pela janela

Compadecido por me ver sentado no café com os olhos fixos no infinito filtrado pela janela, o ocupante da mesa ao lado, portador de bigode camiliano, pergunta-me em tom generoso: «Quer o jornal de hoje?» Sem aguardar resposta, entrega-me o «Correio da Manhã» dobrado, encostando-o à minha chávena meio vazia. Agradeço a boia de salvação não solicitada, bebo de um trago o que resta do líquido escuro quase frio e mergulho na realidade paralela do matutino. Indiferente à transação, a ocupante da mesa seguinte, cuja cor dos botins condiz com a das unhas, continua mergulhada no ecrã do telefone. Estava já tão salva do tédio da inatividade que ao meu vizinho pródigo nem ocorreu socorrê-la, presumo.