19.4.18

O tronco comum

Descubro, com espanto e devoção, que dois dos escritores que, por terem existido, lavraram a minha existência, descendem, literarariamente, de um tronco comum que os antecedeu de dois séculos. Apesar de contemporâneos, ambos guardaram segredo de tal origem, ou revelaram-no apenas por palavras crípticas, em código dificilmente decifrável por imperitos: nunca souberam esse pormenor, creio-o, um do outro — e poucos, se é que alguns, são os que os ligam por essa via ínvia e remota. Também os ramos de uma árvore dessabem da sua consanguinidade. A individualidade mais não é do que a expressão de uma ignorância procurada ou, no caso dos espíritos inquietos, artificiosa.