28.4.18

Soa um sino

Vi, há anos, num ecrã muito grande, noutras terras, Norman Mailer narrar, como só ele — que assistiu e escreveu um livro sobre o combate — sabia e podia, o regresso vitorioso de Ali, após ter sido encostado às cordas por Foreman, em Kinshasa, em 1974. Recordo-me do tremor na voz de Mailer, da emoção mal contida no olhar e do meu próprio arrepio, não pelas pancadas ritmadas, devastadoras, trocadas entre os dois, mas pela ressurreição daquele que se julgava perdido, como se, encerrado na gruta selada por uma pedra, tivesse voltado por intervenção de um qualquer dos deuses, do  mundo dos ex-vivos.

«Ali boma ye», gritava a multidão, a pedir um sangue impossível.

«Boma ye» sobejava: não era letal, o objetivo de Ali. Tão somente, poder levantar o braço como bandeira de vitória. Lembrei-me de Mailer, de Ali, do ecrã até, ao regressar a Diniz Machado, ao rapaz, a Molero, a outro ringue. «Rings a bell», diriam os ingleses. Eu gosto das vitórias dos que se libertam das cordas. «Sim, soa um sino», pois claro. A mim soa.