10.4.18

Tudo sob controlo

«Está tudo sob controlo,» chega-me ali da diagonal da esplanada a voz alta, de comando, assertiva, como sói dizer-se. Agora está, penso eu aqui a meias com a chávena, enquanto a chuva cai, sem controlo, à volta — e eu sob abrigo, ainda assim. Agora está, mas não me cabe invejar os dois condutores que se conheceram por acidente, ao meu lado, ainda há minutos, já estava eu perto da minha meta, e eles subitamente com um dia tão longo pela frente, tão longe da deles. Talvez se tenham travado de razões, que nem para mim, que assisti de vivos olhos, foi claro quem bateu em quem, de certeza que pararam a circulação na rua, já cheia como uma romã, outros condutores impacientaram-se, impacientam-se ainda, quem sabe, sob a torrente que alaga o dia, muitas horas perdidas pela frente. Podia ter sido eu, leitora, este cujo único desconforto que tem é um frio fino na ponta dos dedos enquanto aqui escreve. Revivo com o que não vivi. «Está tudo sob controlo,» apetece-me ecoar de volta para a diagonal da esplanada. E agarro a chávena com a turquês das mãos, para lhe extorquir os restos do calor doado pelo café.