14.5.18

A derrocada

Quando a conheci, passava o dia numa cadeira junto à janela, recolhida atrás dos reposteiros de veludo vermelho, dormitando enquanto agitava a bengala como se fosse uma batuta ou um látego. A sala ficava no canto da casa, que era de esquina, e assim ela conseguia ver tudo o que se passava, e muito se passava, na confluência das quatro ruas. Recordava a idade, já passara os noventa havia muito, e ordenava ainda com voz de comando, do mesmo jeito que tinha mandado nas muitas mulheres que empregara no negócio de bordados que geria com a implacabilidade dos que reconstruiram a existência após um desastre de proporções épicas.

Alguém me contou que a língua do marido estava negra quando finalmente o encontraram. Ela refez a casa, pagou as dívidas, criou o filho, viu-o casar, aguardou os netos, que nunca chegaram. O rosto, que encontrei no retrato ao lado do reposteiro vermelho, redondo, que se adivinhava com rosas beijadas pelo sol, esculpiu-se de rugas, a pele manteve-se estranhamente leitosa, quase do tom das porcelanas que ela guardava no louceiro; o cabelo embranqueceu, orgulhoso como só ela. Quando partiu a perna, aos noventa e quatro anos, os médicos disseram que seria muito difícil voltar alguma vez a andar.

Não a conheciam. Viveu mais seis anos depois do prognóstico, como que para o contrariar, pelo menos para o desacreditar. A criada encontrou-a um dia ao fim da tarde com a bengala caída no chão: não chamou por auxílio, não gemeu, não disse uma palavra. Apenas se foi, com a determinação inabalável dos que dominam o corpo e o tempo, o que é o mesmo. Anos mais tarde, quando passava frente à janela, ainda olhava, como se esperasse ver o seu olhar cinzelado junto ao reposteiro vermelho, que parecia preto às horas sombrias do final da tarde, no cruzamento das quatro ruas.

A casa caiu por si só. Não foi preciso um terramoto nem sequer um sopro de vento. A derrocada foi rápida e eficaz e começou pelo canto onde ela se sentava. Isso disseram-me, porque não vi. Quando lá passei já só restava o que era demasiado pesado para alguém conseguir levar e o retrato, o retrato na parede, em que ela ainda era apenas a raiz da que viria a ser, o retrato que ninguém tinha querido, nem o filho, nem os outros herdeiros. Esse, trouxe-o eu.