5.5.18

A renúncia

Sabemos que Borges renunciou à metáfora, por ele cultivada com tanto ardor nos tempos continuados do criacionismo de Vicente Huidobro. Sabemos do seu desprezo pela metonímia, tão ao gosto de uma certa poesia francesa actual (e portuguesa, diga-se de passagem). Ele inclina-se antes para Homero, interessa-se pelos isabelinos, medita Verlaine e Valéry — e talvez pretenda ser apenas um glosador dos chamados poetas menores da Antiguidade. O seu discurso esforça-se por se manter tradicional, evidenciando o pendor para a métrica e a rima. Além disso, Borges considera da maior ousadia expender uma imagem que seja um lugar comum ligeiramente transviado. Trata-se de uma posição implacável, bastante incómoda — íamos dizer: assustadoramente escandalosa, numa época em que a preocupação primeira dos poetas é efectuar o insólito. Ele acaba, assim, por ser o mais insólito dos grandes poetas vivos, graças a essa mesma renúncia.

[Herberto Helder, 25 de Dezembro de 1971.]