7.5.18

Calções de peitilho

«A ilha não é tão grande assim», diz o comandante. «O velho Malaquias fez anúncio na telefonia, organizou uma batida, como se eles fossem bichos fugidos, mandou a matula pelo mato durante a noite de luzernas acesas, a bramar como gente de alma roubada. Foram apanhados no dia seguinte, aninhados um no outro, a tremer como peixes enleados na rede.» O velho deu-lhe tal muxinga que dizem que ouviram o eco dos gritos lá para a zona da ribeira; o comandante estende o dedo na direção da vendedora de lenço vermelho, mas eu bem sei que é para lá dela que ele aponta.

«Ele, ainda passou uma semana nos calabouços da polícia. Levou uns carolos do Sargento Saringa, que tem conta aberta na quitanda. Com o Malaquias ninguém mexe. Ela ia chorar às grades que dava dó. O velho abalava da loja ainda de avental posto e arrastava-a pelos cabelos, cacarejando como um galo. Safado duro, aquele.»

«Mas a semente tinha sido lançada à terra», diz o comandante, afastando com mão displicente a oferta da vendedora de lenço vermelho. «Quando o velho a viu agoniada, de olhos aguados, sumindo da quitanda para deitar a rede pela borda fora por causa do cheiro da fruta acalorada que o velho deixa amanhecer mal, falou com o padre, marcou ele o casamento, empregou o moço, que tem boas costas, nas entregas, arranjou para eles o quarto das traseiras da quitanda, e anunciou que ia ser avô. «Vou ser avô», confidenciava a toda a freguesia. E contava a história do neto que ainda havia de nascer. Via-o destinado a grandes feitos, olhava esperançado para o palácio cor-de-rosa. «Um dia, será nosso», Dona Adozinda ouviu-o dizer bastas vezes.

Não fez festa de casamento da filha, mas fez folia de arromba do batizado, uma semana depois do Quiaszinho nascido, com direito a quitanda fechada o dia todo. Dantes, a quitanda estava sempre de porta aberta, tirando no dia de Natal, a partir da hora de almoço.

O velho Malaquias tinha ficado lá atrás, no início do mercado, quando o vimos a comprar uns calções para o Quiaszinho e o comandante me começou a contar a história.

«Eu também tive uns daqueles assim», e saco da carteira a minha foto com os calções como os do Quiaszinho. «A foto é a preto e branco, sei lá eu se são iguais?», desconfia o comandante. «Olhe aqui o peitilho, não se está mesmo a ver que são iguais? Iguaizinhos. Ora que cisma!»

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]