5.5.18

Impopularidade

Apetece-me intensamente escrever hoje uma nota sobre algo que, sem discussão, seja bastante impopular. Primeiro, o tema: o território literário. Depois, a figura: Agustina Bessa Luís. É evidentemente o maior escritor português vivo, e o único com absoluta certeza visitado com frequência inquietante pelo génio.

Agustina chama-se a si própria de «reaccionária», mas houve quem lhe dissesse «que não é reaccionário quem quer». Foi Eduardo Lourenço.

Um dos primeiros livros desta autora avançava um título provocante – Contos Impopulares – e foi pouco lido. Os volumes seguintes até A Sibila também. Com esse romance o nosso único génio literário vivo caiu na armadilha do aplauso. Mas havia ali muita atenção, e Agustina logo desfez o equívoco. O livro que apareceu depois passou quase desapercebido. Daí em diante, a escritora teve cada vez menos leitores, conforme mais fundo mergulhava na qualidade do seu génio. Livros extensos desdenhosamente isentos da convenção de uma arquitectura, repletos de subtilezas de linguagem, devorados pela febre da deambulação filosófica, atravessados por personagens que se iam fazendo, desfazendo, refazendo e de novo desfazendo – desencorajavam eles o gosto raso do público e da crítica. Intimamente, a autora rejubilava. Atingiu tal grau de silêncio circundante que o seu génio se pôde exercer na mais pura liberdade. Enquanto «a canalha da literatura», com sede na imprensa, se acotovelava para a glória, Agustina sorria ironicamente na sua casa do Porto.
Dá-me muito prazer sentir que esta nota está a chatear as pessoas, porque é uma maneira condigna de poder acenar levemente a autora de A Muralha.
Agustina escreve um enorme volume por ano, às vezes mais. Tem um editor fiel. Ela é tão grande que a literatura portuguesa será uma porcaria daqui a uns vinte ou trinta anos. Quando tiver (se vier a ter) a infelicidade de ser descoberta para o consumidor geral, já não dará por isso. Ela não merece a injustiça degradante da popularidade.

Vou principiar hoje a ler o seu último livro, e não o emprestarei a ninguém. Desejo o menos possível que seja quem for comece a lê-la, e desate a gostar sem compreender nada, como é costume nestes casos. E estou contentíssimo por ter escrito esta nota que (espero bem) ninguém lerá até ao fim, nem mesmo até ao meio.

[Herberto Helder, 21 de Agosto de 1971.]