2.5.18

O mar através de uma garrafa

«A saudade é inútil», diz o comandante, que mora na ilha desde quando o mundo ainda era moço. «Chegam aqui, estão duas ou três semanas, e um dia dizem-me: bateu-me cá uma saudade...» O comandante mira o mar através do vidro da garrafa de cerveja. «E eu dou-lhes uma garrafa e digo-lhes para olharem o mar assim. Pergunto-lhes: O mundo mudou, porque há uma vidro de permeio?» Continua, sem esperar a minha resposta: «Não. Muda o mundo, notar-se a distância? A distância está sempre lá: note-se ou não. É uma ilusão inútil, a saudade. Mais inútil do que uma miragem no deserto, que não mata a sede, mas gera esperança. Não há esperança na saudade.»

A gaivota que pousa na balaustrada do bar já tem nome; chamo-lhe «Crioula.» Vem escutar as nossas conversas, a cusca Crioula.

«Leve a garrafa, olhe o mar através dela e a saudade ganhará perspetiva, como o horizonte», aconselha o comandante. «Leva a garrafa, paga o depósito», responde lá do balcão o dono do bar. O comandante, decano da ilha, esquece que ali, se a saudade abunda, tudo o mais escasseia, é precioso: uma garrafa é um tesouro. E não basta a gaivota, senão o dono do bar a escutar as conversas. As ilhas são um desassossego. A garrafa fica em cima da mesa, a nova perspetiva também. A saudade continua comigo, que é onde pertence. «É inútil, mas é minha», digo ao comandante. Ele abana a cabeça como se tivesse andando a gastar areia para assorear o mar. O dono do bar, finge que limpa copos ainda de ouvido esticado, mas Crioula, a sábia, voa: do tema da saudade, já sabe tudo o que precisa.

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]