1.5.18

Trabalhadores

«Bom feriado», deseja-me a funcionária de sorriso jovem que me atende, fardada, atrás do balcão, no café com cem clientes, pelo menos. Ao fim do dia terão sido mihares a acostar àquela caixa. Desejo-lhe o melhor dia possível, mas atenho-me de usar a palavra «feriado».

Ainda me detenho a admirar o escritor de notas de música a anotar uma pauta no «tablet» sobredimensionado que expulsa a chávena para um canto da mesa. Como consegue fazê-lo, rodeado de tão desafinado coro?

A rapariga com a t-shirt onde se lê «Bad ass babes club» fotografa o «brunch» como se fosse um casamento ou uma chegada a Ellis Island. Como se fosse «trabalho». Revezam-se, as amigas: de quantos ângulos se pode retratar um copo de sumo de laranja?

Agustina diz que não crê que o trabalha precise de amor.  «O amor é uma forma de medo, não sei se me entendeis.» Entendo, mas não concordo. O amor é uma forma de coragem. O trabalho, também.