16.5.18

Um amor

Era tão bonita que, após todos estes anos, creio que o fascínio que me causava se aproximava da paixão se eu fizesse ideia do significado de tal sentimento, que só se corporiza com uma palavra que o defina, e essa eu não a sabia então. De corpóreo, apenas a memória da face dela que me aparece difusa no contraste com a precisa recordação da moldura dos seus cabelos negros.

Eu tinha dez anos, e ela mais vinte do que eu e era casada. Um amor desesperadamente impossível, que eu sublimava esfolando os joelhos como um penitente, com quedas em manobras circenses de bicicleta ou jogos de futebol em terrenos pedregosos. Viviam, ela e o marido, na casa ao lado, da qual recordo apenas a porta, castanha, de madeira natural, com um puxador de latão, de viés, maior que o meu braço.

Apesar da proximidade de portas, era um amor à distância, porque ela pouco saía e, se me encontrava na rua, olhava-me como se eu fosse transparente; tenho a certeza de que, através de mim, via o rendilhado das pedras da calçada. Talvez me sorrisse, mas o tempo é um apagador de inexcedível qualidade e não o recordo.

Um dia mudei de casa e, se antes a via quando o destino lançava os dados, nunca mais a encontrei. Mais de uma dezena de mudanças depois, os nossos caminhos continuaram descruzados. Ela permanece com trinta anos, eu já passei tal idade há muito: é mais nova do que eu agora, portanto. Recordei-me dela, não que precisasse de pretexto, mas porque encontrei num livro palavras de uma homenagem póstuma ao marido, portentosa figura, tão tonitruante ele quão etérea era ela.

Há muito que não esfolo os joelhos: as minhas penitências atuais raramente mortificam o corpo, pelo menos a parte visível dele. A bicicleta, que é já outra, maior, tem estado em pousio, os campos ganharam relva menos abrasiva do que as pedras que neles saíam disparadas como tiros de mosquete. Ela deve continuar, nos seus trinta anos de agora, tão bonita como nos que tinha então. Eu, de persistente, só tenho a convicção de que todos os amores são impossíveis. Apenas diferem no tempo que levamos até concluirmos que o são. Há quem dê, a esse intervalo alargado de magnífica esperança, a que alguns chamariam ingénua ou irrealista, o nome de felicidade.