6.5.18

Um trópico perto ou distante

«Foi mãe da minha mãe sem ser minha avó», diz-me o comandante.

As fatias finas de sol que se escoam pelas frinchas do telhado da esplanada pintam-lhe a cara com listas luminosas e criam múltiplos focos de incêndio nos cabelos claros. «Foi também minha mãe», acrescentou. «Tia Conceição até mãe da minha avó foi, ainda que sendo sua irmã.»

Imagino essa irmã da avó do comandante, que foi também mãe da mãe, e mãe dele, e tudo, com uma face parecida à que vejo nele, talvez com os mesmos cabelos claros incendiados pelo sol. Afinal, os nossos genes mudam, evoluem, com a nossa vida. Ela, essa mãe que o era sem o ser, que o abraçou quando nasceu, moldou-o com as suas mãos e o seu olhar, como a uma porção de caulino que se transforma de massa por formar em peça perfeita. Ele ganhou-lhe o jeito e as feições.

O olhar do comandante perde-se em Dona Giza, que embala o filho adormecido no colo, ali, ao lado do balcão, sob o olhar vigilante de Crioula, a gaivota, talvez ela mãe com filhos voando por um qualquer céu, um trópico perto ou distante. «Embalou minha mãe. E embalou-me a mim. Talvez tenha embalado minha avó, também.» Faz uma pausa. «Foi mãe de três gerações», e levanta a mão com três dedos esticados. E depois junta-lhes os da outra mão: oito dedos. «Pelas minhas contas, foi mãe toda a vida, foi mãe mais de oitenta anos.»

«E quando partiu, deixou o mundo povoado, como Eva.»

Crioula parece andar pé ante pé para não acordar o filho de Dona Giza. Deus deixou o mundo ao cuidado das mães, de todas as mães, independentemente das razões da biologia, penso eu. O comandante, que embala o filho de Dona Giza com um gesto da cabeça ao ritmo das asas volantes de Crioula, parece assentir. Na cara, o sorriso maternal que herdou de Tia Conceição, adivinho eu.

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]