13.6.18

Caderno diário

Eram oito e trinta e quatro quando o pássaro do beiral, que tem andado ausente em lugares ignotos, abriu o bico e trinou. E trinou, por Deus, trinou como se tivesse estado em debate de mérito de Alfama versus Mouraria até ao alvorecer, por entre vielas mal iluminadas, com cheiro a sardinhas, vinho tinto e cigarros de enrolar. Trinou, com o pio metalizado de quem passou a noite a debicar copos alheios aproveitando as distrações e benevolências das hordas noctívagas que se acotovelaram pelas ruas estreitinhas que levam ao Castelo, como os cruzados de Ricardo que vieram, viram, venceram e se prostraram a canjirões de vinho oferecidos pelos libertados, senão pelos vencidos. Trinou, e até me pareceu encontrar no canto a vocação da Rua da Betesga, ao Rossio. Exausto com tal hercúleo trinado, calou-se; passaram-se três horas e mantém o silêncio. Tirou o feriado para dormir, alvitro eu.