19.6.18

Futebóis

Dona Patroa apanha-me já à saída, já depois das cerejas e do café, e diz-me em tom de confidência: «Doutor, amanhã vamos ter aqui o futebol.» E eu, disfarçando o melhor que sei a minha desoladora ignorância: «Ai sim? Pois, amanhã é quarta. Mas que bom...» «Não deixe de vir, que vamos ter tremoços e bifanas para acompanhar», diz-me a Dona, com notas de sigilo precioso na voz, como um fado cantado em sussurro. Todos nós temos Amália na voz, cantava o poeta que era também barbeiro. Não sei se tenho, penso eu, e talvez também não tenha também os futebóis no coração. Mas vou, pelo menos, considerar: não me lembro de alguma vez ter comido tremoços aqui nesta esplanada e agrada-me a aventura de experimentar algo novo. Quem sabe se não concluirei que o futebol está para os tremoços como os ditos estão para uma cerveja bem gelada, em copo a transpirar de frio, ao fim da tarde, frente ao mar?

[Não se amofine a leitora que eu já descobri, pelos meus próprios meios, que estes tremoços são à hora de almoço, combinação mais improvável não imagino, se posso dar a minha opinião.]