8.6.18

Missiva sobre a nova ala

Recebo uma carta escrita com caligrafia cuidada nos clubes de Oxford, que identifico com J. Eustáquio de Andrade, professor emérito do Magdalen College, atualmente a viver os seus anos dourados no amplexo generoso da dulcíssima Orchidée.

Meu muito estimado amigo,

As almas fracas fenecem quando lhes falta o sol, como pétalas de malmequer ou caules tenros, lamentando-se como Jeremias, fazendo escândalo, fungando, ansiando por dias luminosos, como donzelas de pálidas faces à procura do bálsamo de uma cor que lhes permita receber o verão como a um amado perdido. Fontes que não identificarei, mas que aqui ao meu lado limpam os olhos perlados de comoção enquanto balbuciam «Ah, pauvre, pauvre J.», afirmam que o meu ilustre amigo anda amargado com o mês cinzento que aí vai, com desânimo de vida, enfraquecido como um Sansão a quem a cabeça amanheceu rapada, murcho como um figo seco.

Eu sempre achei, mas tenho guardado para os meus mais íntimos pensamentos, como sabe, que essa sua dieta de ervas, essas misturas de acelgas com urtigas, que lhe servem as tais Donas com falas que passaram o equador e que o bajulam amiúde chamando-lhe «doutor» e sabe-se lá mais o quê, lhe acabariam por tirar o pouco vigor que separava um espécime humano como o meu estimado amigo de um peixinho de aquário. Bem, adiante, não denigramos os peixinhos de aquário, por quem a minha Orchidée, este cometa fosforescente que ilumina a minha órbita tardia, tanto suspira: «Ah, pauvre, pauvre poisson.»

As almas fortes, de que conheço bem pelo menos um exemplar, temperado a banhos de água fria, invernos britânicos e tinto da Herdade d’Andrada, rebrilham e rejuvenescem com um tempo assim, fortalecem-se, revigoram, rebentam paredes, erguem paredes, berram com empreiteiros, acrescentam alas, preparam-se para inaugurar bibliotecas. E lembram-se dos elos mais fracos da humanidade, ou seja, dos espécimes como o meu amigo, que vivem na esperança da luz e na sombra dos livros quando se preparam para por a uso mais umas centenas de metros lineares de estantes do melhor carvalho da Pomerânia.

Assim, a instâncias da doce ninfa que espreita por cima do meu ombro enquanto esboço estas linhas, venho convidá-lo a comparecer, no sábado próximo, às dezanove horas, em traje — como sói dizer-se — de negócios ocasionais, que não vejo o meu amigo a fazê-los de outro tipo ou género, aqui na casa d’Andrada ao Restelo, para a apresentação oficial da ala sul da biblioteca d’Andrada, a que foi dado o nome inteiramente inesperado de Ala Orchidée.

Na ocasião serão servidos os melhores vinhos da Herdade d’Andrada e os faisões para os quais o misericordioso Reboredo afia agora as suas artes aprendidas em King’s Saul Boulevard. Manjares, como vê, capazes de restabelecer até um peixinho amortiçado nas areias do aquário. Não se atrase, que o misericordioso Reboredo tem maus fígados, quando vê os seus bem-amados faisões jazerem arrefecidos nas travessas por demoras de convidados.

Deste que muito o estima e considera,

J. Eustáquio de Andrada