27.6.18

O outro lado do rio

E conclui a Dona, rasgando aquele sorriso alvíssimo como a espuma do mar: vou ficar mais perto de casa, doutor. Depois vai lá tomar um café, pois vai? Ora essa, Dona Aureliana, claro que vou: digo eu, e sinto-me a fazer contas da distância, que não é um equador, somente um rio. Mas há rios que são equadores, como este que a Dona atravessa todos os dias às seis da manhã, e vai deixar de atravessar, e isso é motivo para um sorriso, uma celebração até. E eu não precisaria ir tão cedo lá ao outro lado para o café, não tenho hora certa determinada por relógio da Reguladora para o tomar, fica só um bocadinho fora de rumo, mas onde não se vai para uma boa chávena fumegante? Até ao fim da rua, até ao fim do mundo, responderia o meu jingle favorito. Ainda me apetece dizer que tenho pena de ver ir a Dona, mas vejo-a tão feliz que faço a festa e brindo ao sucesso, e aos futuros clientes cheios de sorte. Sabe Doutor, eu gosto muito disto aqui, mas é altura de ficar perto de minha menina, é que ela vai para a escola para o ano: diz a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador mais o rio, tão coberto de prata o rio pela manhã. Não vou conseguir lá ir todos os dias, como aqui venho, Dona Aureliana: digo eu, sabendo que a Dona sabe. Mas quando me apetecer o melhor café do mundo, apareço lá ao seu balcão. E também tem lá esplanada, doutor, para melhor com vista de rio, como gosta: diz a Dona. E assim sei que a Dona, mesmo sem ler estas minudências inconsequentes, conhece bem os meus pontos fracos, pelo menos tão bem como a atenta leitora, não tenho como não admitir.