25.6.18

Placebo

Não acendo o candeeiro porque a luz de leitura espalha calor e fico a ler junto à janela até que a luminosidade da tarde se esvai num tom negro derramado sobre azul. Os meus olhos atingem o limite da precisão, todas as letras se dissolvem pastosamente no papel e é então que decido render-me, estender o braço, ligar o interruptor. A luz irrompe pelas páginas do livro, e com ela vem o temido e esperado calor, a acrescer ao já acumulado do dia. Num lampejo, recordo que a lâmpada é moderna, eficiente e fria, o que confirmo ao toque. O calor é um placebo, concluo. Isto enche-me de esperança: se o calor é, talvez me consiga convencer a mim próprio que esta falta insidiosa que me envolve como a luz do candeeiro, é placebo também.