21.6.18

Ponte aérea

De cada vez que um avião passa, um poeta interrompe o dizer de um poema. Somos poucos na assistência, é ao anoitecer, estamos ao ar livre, no que foi o quintal de um poeta que não ouvia aviões. E ao  começarem as leituras, parece iniciar-se também um êxodo, como se os poemas tivessem despertado os aviões adormecidos, que ziguezagueiam por entre as vozes dos poetas. Falam mais alto, sempre que um avião se faz ouvir, mas é inútil lutar contra estas toneladas de metal volante. Param os poetas, e ouvimos os aviões transportarem o rugido para mais longe, até se tornar apenas um sussurro e depois, nada. O poema pode prosseguir, que outro avião espera, ainda longe de audição, o próximo. A poesia é a pista de aterragem desta ponte aérea.