19.6.18

Roda vinte e nove

Apreciei-lhe o jeito dramático de falar, a ênfase dada às palavras como um Ary dos Santos fora de tempo, modelando a voz como se a cavasse a golpes de pá; ouvi-lhe as opiniões fortes, o tom desencantado e as desconfianças com o rumo do mundo; respondi com palavras de compreensão, que lhe provocaram acenos vigorosos de cabeça. Exames feitos, enquanto digitava a receita no computador, a conversa desviou-se para outros trilhos, e ele, como se fosse um avô desvelado a apresentar o neto, mostrou-me, no telefone, a imagem da bicicleta. «Roda vinte e nove», disse-lhe eu e ele confirmou, boa para as subidas e terrenos planos; não tão boa nas descidas. A roda vinte e nove não ajuda sempre aí, confirmei-lhe. Durante mais de quarenta minutos, ouvi-o, retorqui, acrescentei, argumentei. Notei que, enquanto falava da vida de fim-de-semana, se evadia das quatro paredes, e andava, feliz, tombando e arranhando-se por veredas estreitas e barrancos vertiginosos. Com a amargura inicial já distante, não soube, nunca saberei, quem é que consultou quem, afinal.