7.6.18

Sob controlo

«Um café, doutor?» afirma Dona Yara, em forma de pergunta, naquela fala lá dela, cantada, que atravessou o equador, já a colocar a chávena na máquina. «O mais forte que tiver, Dona Yara. Hoje tem que durar muito, esse café,» digo eu, ainda estremunhado por dentro das pálpebras.
«O doutor hoje tem trabalho até às onze da noite,» anuncia, do balcão ao lado, Dona Aureliana.
«Mas é que é mesmo Dona Aureliana, como é que a senhora adivinhou?» e eu faço-me de novas, finjo a surpresa que tenho.
«É que eu controlo tudo, eu sei tudo, tudo o que se passa,» afirma a Dona. «Sempre que se senta ali naquele canto é porque tem muito trabalho. Sei tudo mesmo.»
E eu levo o café para o canto fatídico, o que denuncia as horas dos meus dias e aproveito para dar estas notícias breves à leitora: apesar das horas longas como galáxias, está tudo sob controlo. Inclusive eu.