29.6.18

Tão previsível

Menina Sara, que me alimenta há mais de duas décadas, traz-me o meu vinho preferido, decidido há muitos anos, franze o sobrolho se eu hesito em aceitar a sugestão gastronómica dela, o que me evita olhar para a lista encadernada em couro polido e, no final, apresenta-me a taça com a minha sobremesa de perdição, sem que da minha boca outras palavras saiam que o rogo para que transmita os parabéns à cozinheira. Até a fatura que Menina Sara traz, já vem preenchida com o meu número de contribuinte. Tão previsível sou que, quando me decidir a escrever as memórias, basta-me sair um dia de manhã em busca delas, e regressar, vinte e quatro horas depois, com a minha vida, milimetricamente reconstituída. E talvez doze horas bastassem, já para não dizer seis.