13.7.18

Escaipi

O Senhor Barbosa diz-me que amanhã, bem cedinho, vai levar Dona Clarinha ao aeroporto, o destino da Dona é Maceió, estado de Alagoas, e por lá ficará um mês, «Queira Deus que não seja para sempre», treme o Senhor, que a conheceu há seis meses, seis meses de júbilo, de plena felicidade. Vai visitar a família, ela, e ele fica, medo de andar de avião, ainda mais tão longe. E agora, na véspera, é o medo do não regresso que o afronta, que ela por lá encontre outro, se deixe enfeitiçar, e condene o Senhor Barbosa à condição que era a sua, até há seis meses, de viúvo aposentado de horizontes. «Mas ela já me ensinou a trabalhar com o escaipi», diz-me ele, e se a fé move montanhas, o escaipi cava túneis, ergue pontes, e das montanhas engendra planaltos. «Vamos falar todos os dias por escaipi», garantiu-lhe ela, para o descansar. E ele sorri, um sorriso que esconde o pânico, que eu vejo frente a frente e que ela, pelo escaipi, nunca verá.