31.7.18
Robespierres
«Guilhotinaram os livros», diz-me o alfarrabista, com um esgar de horror, que eu partilho, mal acreditando que alguém o faça sem que o estômago se dobre em nó. Por isso já não encontro esses livros, mesmo escrevendo para a editora, mesmo sabendo que deveriam ter ficado em armazém, a aguardar os compradores que tardavam, dos quais eu seria um, possivelmente de entre muito poucos. Ambos parámos, respirámos fundo, olhámos outros tomos nas estantes em redor, as primeiras edições no armário com vidros, os outros vestindo as tábuas de madeira envernizada. Os guilhotinados eram também edições primeiras, que outras não chegaram a ser editadas, os compradores nunca responderam à chamada, ao apelo, nunca pararam no balcão da compra. De repente, apercebi-me que um editor pode esconder um Robespierre, um guilhotinador, que prefere decapitar um livro, como qualquer descartável de um «ancien régime», a reabilitá-lo para outro fim que não obrigue a câmbio de dinheiro por leitura. Eu não concebo os livros senão como números inteiros. O amor, aos livros, a tudo, não tem existência, não tem significado sequer, como fração.