5.8.18

Noir

O par que se sentou junto à porta, na mesa ao lado da minha, é por demais perfeito. Ela nem precisaria do vestido preto justo, curto, dos sapatos prateados onde mal se equilibra, do cabelo de ouro claro penteado com esmero, da maquilhagem sem motivo de reparo, exceto talvez o excesso de realce nos lábios, nem ele do penteado de ator de Fellini, da face imaculadamente escanhoada, da camisa florida, havaiana, do olhar perscrutante, da forma como envolve as mãos dela nas dele. Noutros trajes, com outros gestos, já seriam perfeitos, sê-lo-iam sempre. Assim, são-no demais. A perfeição excessiva é sinistra. A brisa que se faz sentir agora, enquanto atravesso a ponte, não justifica o arrepio que me perfura a pele, meia hora depois de sair do restaurante.