Em Chiapas, entrei na igreja de San Juan Chamula, que tem o arco da porta pintado do verde das folhas da magnólia mexicana. Um pinheiro cobre a porta. Os nativos Tzotzil, que frequentam a igreja, são católicos devotos, São João Batista é o padroeiro da cidade, e o batismo é o único sacramento observado na igreja. Em San Juan Chamula não há padre. Quando é necessário, os Tzotzil trazem um de outra cidade, deixam-no derramar água benta sobre a cabeça da criança e dizer umas orações e assim como veio o enviam de volta. No resto do tempo, os paroquianos praticam antigos rituais maias. Não há bancos na igreja e o chão é coberto de agulhas de pinheiro. O ar é denso com o calor e o cheiro a incenso.
Três mulheres Tzotzil ajoelhavam-se no chão, atrás de fileiras de velas acesas. Na parede acima, um santo paramentado espreitava de dentro de uma caixa de vidro. Do seu pescoço, pendiam vários espelhos. As mulheres beberam goladas de garrafas de Coca-Cola e arrotaram na direção do santo. Eu não conseguia ver, mas aparentemente o santo aliviou as mulheres dos seus espíritos malignos, recolhendo-os nos espelhos em volta do pescoço.
Uma das mulheres estava doente. Tirou uma galinha viva que ocultava sob o xaile; acariciou-a; sussurrou-lhe algo inaudível; de um golpe, partiu-lhe o pescoço. Depois, pousou a galinha sobre as agulhas de pinheiro, com um gesto leve como uma pena. As três mulheres cantaram e arrotaram mais uma vez. Passado algum tempo, guardaram a galinha morta num saco plástico e deixaram a igreja. Ninguém comeria jamais a galinha. A mulher estava curada e era a galinha que carregava a doença.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]