18.9.18

O derradeiro passageiro

O calor do inferno já se faz sentir a meio da manhã e é exacerbado pela humidade que parece nascer diretamente nos pulmões, tornando cada ciclo de respiração uma cena de pugilato por debaixo da pele. Eu estou sentado no «tro tro», o mini-autocarro, melhor, a furgoneta, que me levará até ao meu destino, a duas horas de distância de Acra. Antevejo os meus ossos a pedirem misericórdia nas estradas de terra batida, com aquela suspensão de ferro rijo com amortecimento a chumbo. Mas para já, só quero é iniciar viagem, sair daqui, sentir o alívio da brisa entrando pela janela, ao invés deste ar estacado como o condutor, à espera do último passageiro.

O «tro tro» só parte quando não restar um lugar livre e eu já estou a postos há duas horas. O último lugar está há quarenta minutos à espera de ser ocupado. A minha impaciência ocidental ainda tem a tentação de pagar ao condutor o lugar, para que dê sinal de partida. Ah, mas é o sítio errado para ser impaciente e intuo que de pouco me servirá subverter o sistema, arriscar a ira calada ou não dos companheiros de viagem quando perceberem a manobra insidiosa. E o condutor guardará o pagamento e continuará à espera, fazendo de conta que nada se passou. Não há livro de reclamações no «tro tro».

Espero, olhando a multidão em torvelinho em volta que, de entre todos os que andam vergados pelo calor, surja o derradeiro passageiro, o messias, que finalmente, possibilite que me levem, senão à terra prometida, pelo menos para fora daqui. E é então que me ocorre que a única forma de conseguir viver no Ghana é fazer como se cá tivesse nascido. Num momento, decido abdicar de relógio, bússola, termómetro ou higrómetro.  Esqueço as duas horas de espera, os quarenta graus, os oitenta por cento de humidade A medição encerra em si a angústia. Que seja o que for, desmedidamente. E uma estranha calma, ghanesa diria, toma então conta de mim.