17.9.18

Os dias da rádio

Eu trazia as histórias de uma rádio universitária, dos tempos de estudante, e ele, de uma rádio local, em La Oroya, onde embarcou no autocarro e se sentou ao meu lado. De súbito, estávamos a conversar como velhos conhecidos, oficiais do mesmo ofício que não era o que alimentava nenhum do dois. Chamava-se César Hernández, «como o jogador», disse-me, com uma ponta de orgulho na voz. Todo vestido de branco, que lhe realçava a tez morena e o bigode preto cuidado, César tinha uma voz de ouro, uma voz que adoçaria as ondas do éter e quebraria corações como cascas de ovo. Ia para Lima, a uma entrevista na Radio Nacional del Perú. César era o sócio-gerente, locutor e todos os restantes papéis na rádio de La Oroya, uma terra onde, como a maioria no interior do Perú, todas as casas estão permanentemente a meio da construção.

Para sustentar a rádio, César era eletricista e canalizador e reparador de aparelhos de telefonia e pintor e ainda aproveitava o tempo que lhe sobrava no minúsculo terreno do pai. A rádio era, contudo, a paixão da sua vida, para além da novia, Irene, claro. Durante anos, enviou currículos, propostas e podcasts para Lima até que, finalmente, no mês anterior, uma carta oficial, com o logótipo da RNP, tinha chegado, a convidá-lo para uma entrevista de emprego. Irene deu-lhe o seu beijo mais sonoro à partida, o pai fez a cruz da benção, que eu bem vi, César tinha uma pequenina lágrima quando se sentou ao meu lado, falou como uma criança feliz toda a viagem e saiu do autocarro aos saltinhos no seu passo miúdo. Guardou o meu endereço de correio eletrónico para me dar novas e não se esqueceu. Ficou.