17.10.18

O sentimento assimétrico

«Não há sentimento mais assimétrico do que o amor», diz Tia Ermelinda. «Eu nunca disse de alguém, quem me dera estar mais apaixonada por ele. Mas disse algumas vezes, quem me dera não estar tão apaixonada. Aconteceu-me perceber, tarde de mais, que estava apaixonada sem solução nem retorno. O que me deixava às avessas comigo mesma, é que apaixonar-me era dos poucos eventos da minha vida sobre os quais nenhum controlo tinha. Não deixava de o estar, com uma ordem, ou um puxão num cordel. E ai de mim que quisesse desapaixonar-me. O sentimento voltava, pujante como um touro, com a determinação da desforra. Sabes uma coisa, J.? A beleza está na assimetria, a simetria não é natural, por mais que tentem dizer-nos o contrário. Não trocava a mágoa da paixão pela paixão sem mágoa. Conheces alguma coisa na natureza que seja perfeitamente simétrica?»

«Talvez um cristal de gelo, dos que só se descobrem ao microscópio», respondo eu.

«Mas vês que que só se encontra o oposto do amor na estrutura de um cristal de gelo? Se a simetria for o destino da assimetria, se o amor for assimétrico e o gelo, simétrico, não quero deixar de ser assimétrica» diz Tia Ermelinda, com um sorriso travesso entre as rugas suaves da face, que me parece bela, desde a minha infância, assimétrica ou não. A face, digo, não a minha infância.