17.10.20

O tamanho do coração

 Felizmente, está bem guardado. Sinto-o apenas se fizer por isso, a maior parte do tempo esqueço-me dele e espero somente que ele não se esqueça de mim. Sei que pulsa, porque vivo e respiro. Mas está tão bem recolhido que não lhe sei o tamanho. É certo que se for a uma enciclopédia lá estarão as medidas, a capacidade, a volumetria. Creio que o meu estará dentro dos padrões regulamentares, com as devidas tolerâncias. Mas descobri, ou acho que descobri, algo sobre ele: que tem geometria variável. Diria que grande parte do tempo, deverá caber exatamente no espaço que lhe está destinado, à esquerda do esterno. Noutras alturas, no entanto, diminui que eu bem o sinto. Fica pequeno, ou mais pequeno. Não consigo determinar a percentagem exata. O que não se mede, não se pode controlar, diz-se. Não meço o meu coração, menos o controlo. Fica é mais pequeno, dizia eu, por vezes. Quanto mais pequeno, na realidade, ignoro. Se diminui, em torno dele fica apenas vácuo, imagino, porque não noto mudanças no invólucro. O funcionamento mantém-se inalterado. Vivo, e respiro à mesma, mas com um coração mais pequeno. E um vácuo em torno dele. Às vezes, quando fica mais pequeno, ocorre-me até que no vácuo fico eu, todo eu.