9.4.18

A brisa que chega agora

Eduardo desculpa-se de não tomar café comigo de manhã, deixa uma promessa: «Tomamos depois de almoço.» Saio, atravesso a rua, viro a esquina, outra esquina, entro, não peço e dão-mo, sento-me na esplanada, de costas para a porta, de olhar para os vultos que se esfumam, sem nome, nos passeios. Oculto por detrás da chávena, vejo passar Eduardo e, ao seu lado, Margarida. Há outro café nesta rua, do lado ímpar, três números abaixo. Sempre cavalheiro, Eduardo cede o passo a Margarida; levanta o braço, que diz: «Depois de ti.» Antes dele, ela. O braço direito levantado encaminha-lhe o ombro para a porta, num arco dançado, num abraço impercetível. A mão esquerda dela perde-se, esquecida por um instante na dele, o tempo apenas de um piscar de pálpebras. Os gestos desfazem-se, graciosos, depois dela, ele. Não os vejo já, mas a brisa que chega agora, ainda consegue entrelaçar o perfume dos dois.

6.1.18

Uma garrafa à água

Uma gaivota pousa no outro extremo da mesa de tábuas corridas onde me sento com o comandante. Estou de frente para o mar, e ele do meu lado esquerdo. Na mesa ao lado, uma mulher de vestido verde com flores brancas e chapéu de palhinha com uma fita grená afasta as moscas, mão remando no ar com um abanico de fogareiro. O dono do bar assovia baixinho lá atrás do balcão. Bebo pelo gargalo da garrafa um gole de cerveja de água dessalinizada. Tem o sabor adocicado das cervejas de todas as ilhas. «Uma vez encontrei uma garrafa com uma mensagem enrolada, ali à beira de água», diz o comandante, esticando o dedo, num gesto brusco. A gaivota, já próxima, assusta-se. Hesita, levanta as asas, como se fosse partir. Mas fica. A mulher do abanico pousa-o nas pernas e fecha os olhos, enquanto adormece na cadeira. «No papel amarelecido dentro da garrafa, apenas as palavras em espanhol, ‘Não me esqueças’, ‘No me olvides’.» Porque é que se deitaria ao mar tal mensagem, para quem?, interroga-se o comandante. Agora ao pé, noto que a gaivota é demasiado grande, do tamanho de uma galinha, como as que encontrei no outro lado do mundo. Não tenho resposta para a pergunta. «Gastamos a vida a atirar garrafas ao mar, com uma esperança vaga de que os destinatários as encontrem. Mas a maioria perde-se na corrente dos dias.» A gaivota acena a cabeça como que a dar razão ao comandante. O abanico da mulher do vestido verde cai ao chão com um ruído seco que contrasta com o silêncio da tarde e é desta que a gaivota se vai, como se fosse uma garrafa levada pelas correntes do ar. 

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]

8.12.17

Subversão

O conde von Metternich, ao ler um poema de Heine: «Excelente. Confisquem todas as cópias imediatamente.»

13.11.17

Organização do mundo II

O profundo, visto em profundidade, é superfície.

[De uma constatação de Antonio Porchia.]

Organização do mundo

Há o real e o irreal.

Para lá do real e para lá do irreal há o profundo.

[De uma constatação de Henry de Montherlant.]

12.11.17

Aroma de flores

[...] e não sei se se deverá felicitar ou lamentar o homem sisudo e pouco sensível a quem o aroma de flores que a sua amada tem sobre o seio não faz jamais palpitar.

[Jean-Jacques Rousseau, Émile, Ou, De l'Education]

29.10.17

Homem ocioso e curioso

Para um homem ocioso e curioso, diz Borges, a enciclopédia pode ser o mais grato dos géneros literários. Curiosidade não é carência minha, mas já de ócio sofro de uma escassez árida. Na grande balança dos dias poderia colocar, de um lado, um ócio que generosamente apelidasse de virtuoso e do outro, vinte ou trinta cartapácios pejados de cultíssimas vinhetas: uma enciclopédia. Grato, contudo, ficaria eu de não ter que a ler. Borges que me perdoe desta vez, mas fico-me pela curiosidade. O ócio pode esperar.

24.10.17

Somos uma soma

Mais não somos do que uma soma cujo resultado jamais se conhecerá. A soma do que recordamos de nós, do que os outros recordam de nós, do que inferem dos trilhos que deixamos, em primeira, segunda ou qualquer outra ordem de intermediação. Ora, como recolher, fixar, somar tais fragmentos, esboroados pela erosão do olvido? Esse é o nosso drama: não temos total. Essa é a nossa salvação: a conta nunca está encerrada.

12.12.16

De como o escriba toma finalmente um café quente

Da sua torre de controlo do outro balcão, Dona Aureliana viu-me dirigir à máquina do café no balcão principal. De onde estava despachou as ordens de comando ao operador de serviço da máquina, jovem imberbe ainda nas peculiaridades da clientela: «É um café cheio, sem açúcar, para o doutor.» Aquela fala lá dela, que atravessou o equador, ecoou límpida no café, majestática, diria. Quase ouvi o mancebo dizer mentalmente: «Sir, yes, Sir.» Peguei no café e desta vez tomei-o quente, desculpará a leitora, antes de escrever estas linhas inconsequentes. Talvez tenha eu obedecido às ordens imaginadas: «Que está a fazer em vez de tomar o café quente, hein?» Ah, a beleza do respeitinho.

21.10.16

Pela cidade

Dom Casmurro, o dos braços decorados e verbo parco, dá-me o café cheio sem o pedir, com colher e sem pacote de açúcar a acompanhar. Os meus hábitos perseguem-me pela cidade.

1.6.16

Eterna é a noite

Tão perto da meia-noite, tão longe dos seus lábios.

[Da obra apócrifa e inédita de Fred Serras, poeta da perdição.]

21.4.16

Epístola sobre os hebdomadários de cavalheiros

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto pelo aparo da S. T. Dupont de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College, atualmente a residir no abraço envolvente da dulcíssima Orchidée.

«Meu muito estimado amigo,

Levado pela mão gentil de Orchidée, esta musa que ilumina os dias do meu ocaso, andei a ver isso dos hebdomadários nas internetes, como esse de que o meu amigo é editor, ou redator ou tudo por atacado. Percebi que há uma categoria, um segmento, como diria o nosso Moraes, dos hebdomadários de cavalheiros. E concluí, depois de prolongada deliberação —  e alguns protestos audíveis de pauvre, pauvre J — que o meu prezado não está nesse mundo. Aliás, há muito que julgo que nem neste está, mas isso seria uma longa conversa. 

Nos hebdomadários de cavalheiros, os estimáveis editores sabem daquelas coisas elementares da vida, que se aprendem desde, direi, um bom berço:

— Sabem diferenciar Bolívar Belicosos de Ramón Allones, ainda que vendados. O meu amigo, se lhe dessem um cigarro de barbas de milho a experimentar feneceria, qual Caio Júlio César sob a adaga de Bruto.
— Sabem distinguir um Carrera S de um Carrera Turbo, num dia de nevoeiro, apenas pelo som que fazem ao passar por um semáforo amarelo tintado de vermelho. O meu amigo aproveita todos os amarelos tintados de qualquer cor para digitar no teclado desse seu telefone dito inteligente. Mas muito tecla, criatura; quem tem tanto para teclar? (aqui ao meu lado, alguém insiste: pauvre, pauvre J).
— São visitas de casa de Adrià, almoçam no Gagnaire, ceiam no Bottura. O meu estimado alimenta-se de tofu, rúcula, abóbora e, num dia bom, junta-lhe, num gesto de extravagância, umas rodelas de beterraba.
— Já jogaram, pelo menos, no Royal Dornoch e em Pine Valley. O meu estimado, se lhe passassem um putter para a mão, ainda assassinaria algum pássaro distraído. 

Após tal investigação, concluí que o meu amigo não tem qualquer futuro, visível ou invisível, nisso dos hebdomadários das internetes, no ramo de atividade dos de cavalheiros. Nem noutro qualquer, conforme deduzi.

Conhecendo o seu espírito macambúzio, meditabundo e romântico-depressivo, imagino que esteja, por esta altura, a olhar já para os horários dos comboios da linha da Ajuda (há comboios para a Ajuda, não há?). 

Antes que tenhamos que mandar recolher o que de si restar à Calçada do Mirante, ou ladeira limítrofe, o melhor é vir passar o fim de semana à Casa de Andrada (ouço uns gritinhos que mais parecem miados de gato aqui ao lado). Apresente-se amanhã por aqui, e irá connosco para a herdade, onde chegará pálido, olheirento e desnutrido e de onde sairá, com alguma sorte, daqui a quatro dias, nédio, rutilante e direito como um pingalim. 

Quem é quem que lhe quer bem, quem é?

Deste que muito o estima e preza.

J. E. de Andrada»

21.9.15

Cada uma das palavras que usamos

As palavras que usamos são sedimentos de vidas desconhecidas, de histórias não contadas, de viagens venturosas, de civilizações terminadas. 

24.5.15

Crónicas do Grémio Literário

«Um mentiroso deve ser um homem com boa memória,» afirma Andrada enquanto cofia a sobrancelha, aspirando a chávena de café,  de olhos fechados, ondulando a mão, conduzindo uma orquestra invisível, que apenas ele ouve, e eu intuo. «Os modos de um homem revelam as suas mentiras, meu caro,» contraponho, «não há boa memória que reponha a verdade.» Meço, com os olhos, as estantes da biblioteca dele, enquanto Andrada continua a conduzir o seu concerto imaginário: «Apostam na lei dos grandes números. A maioria das mentiras passa porque ninguém se dá ao trabalho sequer de as tentar apanhar.»  Apoio o queixo no polegar, para exclamar o meu ponto: «Se um homem diz que nunca mentiu, está já a mentir. Se for banqueiro, ou político, basta-lhe apenas mover os lábios.» Adivinho que Andrada esteja a conduzir o quinto concerto de Beethoven, e na entrada do piano, no segundo andamento, acrescento: «Apenas Fradique tinha a ambição de só produzir verdades absolutamente definitivas.» Andrada interrompe a condução da sua orquestra: «E de formas absolutamente belas, o Fradique. Mas estes mentirosos de agora,» varre o ar com a mão, «nem na mentira têm gosto estético, quanto mais na verdade.»  Já terminámos o café, o reflexo da água dança no tecto da biblioteca: o sol lá fora aguarda-nos. Andrada levanta-se do sofá Chesterfield e conclui: «A vida são só mentiras, enganos e decepções. É pena é ser tão curta.»