19.6.18

Roda vinte e nove

Apreciei-lhe o jeito dramático de falar, a ênfase dada às palavras como um Ary dos Santos fora de tempo, modelando a voz como se a cavasse a golpes de pá; ouvi-lhe as opiniões fortes, o tom desencantado e as desconfianças com o rumo do mundo; respondi com palavras de compreensão, que lhe provocaram acenos vigorosos de cabeça. Exames feitos, enquanto digitava a receita no computador, a conversa desviou-se para outros trilhos, e ele, como se fosse um avô desvelado a apresentar o neto, mostrou-me, no telefone, a imagem da bicicleta. «Roda vinte e nove», disse-lhe eu e ele confirmou, boa para as subidas e terrenos planos; não tão boa nas descidas. A roda vinte e nove não ajuda sempre aí, confirmei-lhe. Durante mais de quarenta minutos, ouvi-o, retorqui, acrescentei, argumentei. Notei que, enquanto falava da vida de fim-de-semana, se evadia das quatro paredes, e andava, feliz, tombando e arranhando-se por veredas estreitas e barrancos vertiginosos. Com a amargura inicial já distante, não soube, nunca saberei, quem é que consultou quem, afinal.

14.6.18

Um olhar célere

George de La Tour, Fragmento de A Vidente, 1630
É um olhar célere o da rapariga. Sagaz. Um ângulo de visão que só por si será capaz de dar a volta ao mundo inteiro.

[João Miguel Fernandes Jorge]

11.6.18

Água

Sigo abaixo da superfície, vendo as bolhas esparsas, etéreas, que ascendem das minhas mãos, trânsfugas da gravidade. A água respira tão lentamente que juraria estar adormecida e eu avanço em silêncio para não lhe transtornar o repouso, como se tivesse com ela um trato implícito, um pacto — não nos perturbaremos. Chego ao extremo e perscruto a superfície azul, onde tiras de luz dançam com a tranquilidade do que é inevitável: o meu rasto desapareceu, como se nunca ali tivesse estado. Imperturbada, a água é a medida visível do presente.

8.6.18

Missiva sobre a nova ala

Recebo uma carta escrita com caligrafia cuidada nos clubes de Oxford, que identifico com J. Eustáquio de Andrade, professor emérito do Magdalen College, atualmente a viver os seus anos dourados no amplexo generoso da dulcíssima Orchidée.

Meu muito estimado amigo,

As almas fracas fenecem quando lhes falta o sol, como pétalas de malmequer ou caules tenros, lamentando-se como Jeremias, fazendo escândalo, fungando, ansiando por dias luminosos, como donzelas de pálidas faces à procura do bálsamo de uma cor que lhes permita receber o verão como a um amado perdido. Fontes que não identificarei, mas que aqui ao meu lado limpam os olhos perlados de comoção enquanto balbuciam «Ah, pauvre, pauvre J.», afirmam que o meu ilustre amigo anda amargado com o mês cinzento que aí vai, com desânimo de vida, enfraquecido como um Sansão a quem a cabeça amanheceu rapada, murcho como um figo seco.

Eu sempre achei, mas tenho guardado para os meus mais íntimos pensamentos, como sabe, que essa sua dieta de ervas, essas misturas de acelgas com urtigas, que lhe servem as tais Donas com falas que passaram o equador e que o bajulam amiúde chamando-lhe «doutor» e sabe-se lá mais o quê, lhe acabariam por tirar o pouco vigor que separava um espécime humano como o meu estimado amigo de um peixinho de aquário. Bem, adiante, não denigramos os peixinhos de aquário, por quem a minha Orchidée, este cometa fosforescente que ilumina a minha órbita tardia, tanto suspira: «Ah, pauvre, pauvre poisson.»

As almas fortes, de que conheço bem pelo menos um exemplar, temperado a banhos de água fria, invernos britânicos e tinto da Herdade d’Andrada, rebrilham e rejuvenescem com um tempo assim, fortalecem-se, revigoram, rebentam paredes, erguem paredes, berram com empreiteiros, acrescentam alas, preparam-se para inaugurar bibliotecas. E lembram-se dos elos mais fracos da humanidade, ou seja, dos espécimes como o meu amigo, que vivem na esperança da luz e na sombra dos livros quando se preparam para por a uso mais umas centenas de metros lineares de estantes do melhor carvalho da Pomerânia.

Assim, a instâncias da doce ninfa que espreita por cima do meu ombro enquanto esboço estas linhas, venho convidá-lo a comparecer, no sábado próximo, às dezanove horas, em traje — como sói dizer-se — de negócios ocasionais, que não vejo o meu amigo a fazê-los de outro tipo ou género, aqui na casa d’Andrada ao Restelo, para a apresentação oficial da ala sul da biblioteca d’Andrada, a que foi dado o nome inteiramente inesperado de Ala Orchidée.

Na ocasião serão servidos os melhores vinhos da Herdade d’Andrada e os faisões para os quais o misericordioso Reboredo afia agora as suas artes aprendidas em King’s Saul Boulevard. Manjares, como vê, capazes de restabelecer até um peixinho amortiçado nas areias do aquário. Não se atrase, que o misericordioso Reboredo tem maus fígados, quando vê os seus bem-amados faisões jazerem arrefecidos nas travessas por demoras de convidados.

Deste que muito o estima e considera,

J. Eustáquio de Andrada

7.5.18

Calções de peitilho

«A ilha não é tão grande assim», diz o comandante. «O velho Malaquias fez anúncio na telefonia, organizou uma batida, como se eles fossem bichos fugidos, mandou a matula pelo mato durante a noite de luzernas acesas, a bramar como gente de alma roubada. Foram apanhados no dia seguinte, aninhados um no outro, a tremer como peixes enleados na rede.» O velho deu-lhe tal muxinga que dizem que ouviram o eco dos gritos lá para a zona da ribeira; o comandante estende o dedo na direção da vendedora de lenço vermelho, mas eu bem sei que é para lá dela que ele aponta.

«Ele, ainda passou uma semana nos calabouços da polícia. Levou uns carolos do Sargento Saringa, que tem conta aberta na quitanda. Com o Malaquias ninguém mexe. Ela ia chorar às grades que dava dó. O velho abalava da loja ainda de avental posto e arrastava-a pelos cabelos, cacarejando como um galo. Safado duro, aquele.»

«Mas a semente tinha sido lançada à terra», diz o comandante, afastando com mão displicente a oferta da vendedora de lenço vermelho. «Quando o velho a viu agoniada, de olhos aguados, sumindo da quitanda para deitar a rede pela borda fora por causa do cheiro da fruta acalorada que o velho deixa amanhecer mal, falou com o padre, marcou ele o casamento, empregou o moço, que tem boas costas, nas entregas, arranjou para eles o quarto das traseiras da quitanda, e anunciou que ia ser avô. «Vou ser avô», confidenciava a toda a freguesia. E contava a história do neto que ainda havia de nascer. Via-o destinado a grandes feitos, olhava esperançado para o palácio cor-de-rosa. «Um dia, será nosso», Dona Adozinda ouviu-o dizer bastas vezes.

Não fez festa de casamento da filha, mas fez folia de arromba do batizado, uma semana depois do Quiaszinho nascido, com direito a quitanda fechada o dia todo. Dantes, a quitanda estava sempre de porta aberta, tirando no dia de Natal, a partir da hora de almoço.

O velho Malaquias tinha ficado lá atrás, no início do mercado, quando o vimos a comprar uns calções para o Quiaszinho e o comandante me começou a contar a história.

«Eu também tive uns daqueles assim», e saco da carteira a minha foto com os calções como os do Quiaszinho. «A foto é a preto e branco, sei lá eu se são iguais?», desconfia o comandante. «Olhe aqui o peitilho, não se está mesmo a ver que são iguais? Iguaizinhos. Ora que cisma!»

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]

6.5.18

Um trópico perto ou distante

«Foi mãe da minha mãe sem ser minha avó», diz-me o comandante.

As fatias finas de sol que se escoam pelas frinchas do telhado da esplanada pintam-lhe a cara com listas luminosas e criam múltiplos focos de incêndio nos cabelos claros. «Foi também minha mãe», acrescentou. «Tia Conceição até mãe da minha avó foi, ainda que sendo sua irmã.»

Imagino essa irmã da avó do comandante, que foi também mãe da mãe, e mãe dele, e tudo, com uma face parecida à que vejo nele, talvez com os mesmos cabelos claros incendiados pelo sol. Afinal, os nossos genes mudam, evoluem, com a nossa vida. Ela, essa mãe que o era sem o ser, que o abraçou quando nasceu, moldou-o com as suas mãos e o seu olhar, como a uma porção de caulino que se transforma de massa por formar em peça perfeita. Ele ganhou-lhe o jeito e as feições.

O olhar do comandante perde-se em Dona Giza, que embala o filho adormecido no colo, ali, ao lado do balcão, sob o olhar vigilante de Crioula, a gaivota, talvez ela mãe com filhos voando por um qualquer céu, um trópico perto ou distante. «Embalou minha mãe. E embalou-me a mim. Talvez tenha embalado minha avó, também.» Faz uma pausa. «Foi mãe de três gerações», e levanta a mão com três dedos esticados. E depois junta-lhes os da outra mão: oito dedos. «Pelas minhas contas, foi mãe toda a vida, foi mãe mais de oitenta anos.»

«E quando partiu, deixou o mundo povoado, como Eva.»

Crioula parece andar pé ante pé para não acordar o filho de Dona Giza. Deus deixou o mundo ao cuidado das mães, de todas as mães, independentemente das razões da biologia, penso eu. O comandante, que embala o filho de Dona Giza com um gesto da cabeça ao ritmo das asas volantes de Crioula, parece assentir. Na cara, o sorriso maternal que herdou de Tia Conceição, adivinho eu.

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]

2.5.18

O mar através de uma garrafa

«A saudade é inútil», diz o comandante, que mora na ilha desde quando o mundo ainda era moço. «Chegam aqui, estão duas ou três semanas, e um dia dizem-me: bateu-me cá uma saudade...» O comandante mira o mar através do vidro da garrafa de cerveja. «E eu dou-lhes uma garrafa e digo-lhes para olharem o mar assim. Pergunto-lhes: O mundo mudou, porque há uma vidro de permeio?» Continua, sem esperar a minha resposta: «Não. Muda o mundo, notar-se a distância? A distância está sempre lá: note-se ou não. É uma ilusão inútil, a saudade. Mais inútil do que uma miragem no deserto, que não mata a sede, mas gera esperança. Não há esperança na saudade.»

A gaivota que pousa na balaustrada do bar já tem nome; chamo-lhe «Crioula.» Vem escutar as nossas conversas, a cusca Crioula.

«Leve a garrafa, olhe o mar através dela e a saudade ganhará perspetiva, como o horizonte», aconselha o comandante. «Leva a garrafa, paga o depósito», responde lá do balcão o dono do bar. O comandante, decano da ilha, esquece que ali, se a saudade abunda, tudo o mais escasseia, é precioso: uma garrafa é um tesouro. E não basta a gaivota, senão o dono do bar a escutar as conversas. As ilhas são um desassossego. A garrafa fica em cima da mesa, a nova perspetiva também. A saudade continua comigo, que é onde pertence. «É inútil, mas é minha», digo ao comandante. Ele abana a cabeça como se tivesse andando a gastar areia para assorear o mar. O dono do bar, finge que limpa copos ainda de ouvido esticado, mas Crioula, a sábia, voa: do tema da saudade, já sabe tudo o que precisa.

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]

9.4.18

A brisa que chega agora

Eduardo desculpa-se de não tomar café comigo de manhã, deixa uma promessa: «Tomamos depois de almoço.» Saio, atravesso a rua, viro a esquina, outra esquina, entro, não peço e dão-mo, sento-me na esplanada, de costas para a porta, de olhar para os vultos que se esfumam, sem nome, nos passeios. Oculto por detrás da chávena, vejo passar Eduardo e, ao seu lado, Margarida. Há outro café nesta rua, do lado ímpar, três números abaixo. Sempre cavalheiro, Eduardo cede o passo a Margarida; levanta o braço, que diz: «Depois de ti.» Antes dele, ela. O braço direito levantado encaminha-lhe o ombro para a porta, num arco dançado, num abraço impercetível. A mão esquerda dela perde-se, esquecida por um instante na dele, o tempo apenas de um piscar de pálpebras. Os gestos desfazem-se, graciosos, depois dela, ele. Não os vejo já, mas a brisa que chega agora, ainda consegue entrelaçar o perfume dos dois.

6.1.18

Uma garrafa à água

Uma gaivota pousa no outro extremo da mesa de tábuas corridas onde me sento com o comandante. Estou de frente para o mar, e ele do meu lado esquerdo. Na mesa ao lado, uma mulher de vestido verde com flores brancas e chapéu de palhinha com uma fita grená afasta as moscas, mão remando no ar com um abanico de fogareiro. O dono do bar assovia baixinho lá atrás do balcão. Bebo pelo gargalo da garrafa um gole de cerveja de água dessalinizada. Tem o sabor adocicado das cervejas de todas as ilhas. «Uma vez encontrei uma garrafa com uma mensagem enrolada, ali à beira de água», diz o comandante, esticando o dedo, num gesto brusco. A gaivota, já próxima, assusta-se. Hesita, levanta as asas, como se fosse partir. Mas fica. A mulher do abanico pousa-o nas pernas e fecha os olhos, enquanto adormece na cadeira. «No papel amarelecido dentro da garrafa, apenas as palavras em espanhol, ‘Não me esqueças’, ‘No me olvides’.» Porque é que se deitaria ao mar tal mensagem, para quem?, interroga-se o comandante. Agora ao pé, noto que a gaivota é demasiado grande, do tamanho de uma galinha, como as que encontrei no outro lado do mundo. Não tenho resposta para a pergunta. «Gastamos a vida a atirar garrafas ao mar, com uma esperança vaga de que os destinatários as encontrem. Mas a maioria perde-se na corrente dos dias.» A gaivota acena a cabeça como que a dar razão ao comandante. O abanico da mulher do vestido verde cai ao chão com um ruído seco que contrasta com o silêncio da tarde e é desta que a gaivota se vai, como se fosse uma garrafa levada pelas correntes do ar. 

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]

8.12.17

Subversão

O conde von Metternich, ao ler um poema de Heine: «Excelente. Confisquem todas as cópias imediatamente.»

13.11.17

Organização do mundo II

O profundo, visto em profundidade, é superfície.

[De uma constatação de Antonio Porchia.]

Organização do mundo

Há o real e o irreal.

Para lá do real e para lá do irreal há o profundo.

[De uma constatação de Henry de Montherlant.]

12.11.17

Aroma de flores

[...] e não sei se se deverá felicitar ou lamentar o homem sisudo e pouco sensível a quem o aroma de flores que a sua amada tem sobre o seio não faz jamais palpitar.

[Jean-Jacques Rousseau, Émile, Ou, De l'Education]

29.10.17

Homem ocioso e curioso

Para um homem ocioso e curioso, diz Borges, a enciclopédia pode ser o mais grato dos géneros literários. Curiosidade não é carência minha, mas já de ócio sofro de uma escassez árida. Na grande balança dos dias poderia colocar, de um lado, um ócio que generosamente apelidasse de virtuoso e do outro, vinte ou trinta cartapácios pejados de cultíssimas vinhetas: uma enciclopédia. Grato, contudo, ficaria eu de não ter que a ler. Borges que me perdoe desta vez, mas fico-me pela curiosidade. O ócio pode esperar.

24.10.17

Somos uma soma

Mais não somos do que uma soma cujo resultado jamais se conhecerá. A soma do que recordamos de nós, do que os outros recordam de nós, do que inferem dos trilhos que deixamos, em primeira, segunda ou qualquer outra ordem de intermediação. Ora, como recolher, fixar, somar tais fragmentos, esboroados pela erosão do olvido? Esse é o nosso drama: não temos total. Essa é a nossa salvação: a conta nunca está encerrada.

12.12.16

De como o escriba toma finalmente um café quente

Da sua torre de controlo do outro balcão, Dona Aureliana viu-me dirigir à máquina do café no balcão principal. De onde estava despachou as ordens de comando ao operador de serviço da máquina, jovem imberbe ainda nas peculiaridades da clientela: «É um café cheio, sem açúcar, para o doutor.» Aquela fala lá dela, que atravessou o equador, ecoou límpida no café, majestática, diria. Quase ouvi o mancebo dizer mentalmente: «Sir, yes, Sir.» Peguei no café e desta vez tomei-o quente, desculpará a leitora, antes de escrever estas linhas inconsequentes. Talvez tenha eu obedecido às ordens imaginadas: «Que está a fazer em vez de tomar o café quente, hein?» Ah, a beleza do respeitinho.

21.10.16

Pela cidade

Dom Casmurro, o dos braços decorados e verbo parco, dá-me o café cheio sem o pedir, com colher e sem pacote de açúcar a acompanhar. Os meus hábitos perseguem-me pela cidade.

1.6.16

Eterna é a noite

Tão perto da meia-noite, tão longe dos seus lábios.

[Da obra apócrifa e inédita de Fred Serras, poeta da perdição.]

21.4.16

Epístola sobre os hebdomadários de cavalheiros

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto pelo aparo da S. T. Dupont de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College, atualmente a residir no abraço envolvente da dulcíssima Orchidée.

«Meu muito estimado amigo,

Levado pela mão gentil de Orchidée, esta musa que ilumina os dias do meu ocaso, andei a ver isso dos hebdomadários nas internetes, como esse de que o meu amigo é editor, ou redator ou tudo por atacado. Percebi que há uma categoria, um segmento, como diria o nosso Moraes, dos hebdomadários de cavalheiros. E concluí, depois de prolongada deliberação —  e alguns protestos audíveis de pauvre, pauvre J — que o meu prezado não está nesse mundo. Aliás, há muito que julgo que nem neste está, mas isso seria uma longa conversa. 

Nos hebdomadários de cavalheiros, os estimáveis editores sabem daquelas coisas elementares da vida, que se aprendem desde, direi, um bom berço:

— Sabem diferenciar Bolívar Belicosos de Ramón Allones, ainda que vendados. O meu amigo, se lhe dessem um cigarro de barbas de milho a experimentar feneceria, qual Caio Júlio César sob a adaga de Bruto.
— Sabem distinguir um Carrera S de um Carrera Turbo, num dia de nevoeiro, apenas pelo som que fazem ao passar por um semáforo amarelo tintado de vermelho. O meu amigo aproveita todos os amarelos tintados de qualquer cor para digitar no teclado desse seu telefone dito inteligente. Mas muito tecla, criatura; quem tem tanto para teclar? (aqui ao meu lado, alguém insiste: pauvre, pauvre J).
— São visitas de casa de Adrià, almoçam no Gagnaire, ceiam no Bottura. O meu estimado alimenta-se de tofu, rúcula, abóbora e, num dia bom, junta-lhe, num gesto de extravagância, umas rodelas de beterraba.
— Já jogaram, pelo menos, no Royal Dornoch e em Pine Valley. O meu estimado, se lhe passassem um putter para a mão, ainda assassinaria algum pássaro distraído. 

Após tal investigação, concluí que o meu amigo não tem qualquer futuro, visível ou invisível, nisso dos hebdomadários das internetes, no ramo de atividade dos de cavalheiros. Nem noutro qualquer, conforme deduzi.

Conhecendo o seu espírito macambúzio, meditabundo e romântico-depressivo, imagino que esteja, por esta altura, a olhar já para os horários dos comboios da linha da Ajuda (há comboios para a Ajuda, não há?). 

Antes que tenhamos que mandar recolher o que de si restar à Calçada do Mirante, ou ladeira limítrofe, o melhor é vir passar o fim de semana à Casa de Andrada (ouço uns gritinhos que mais parecem miados de gato aqui ao lado). Apresente-se amanhã por aqui, e irá connosco para a herdade, onde chegará pálido, olheirento e desnutrido e de onde sairá, com alguma sorte, daqui a quatro dias, nédio, rutilante e direito como um pingalim. 

Quem é quem que lhe quer bem, quem é?

Deste que muito o estima e preza.

J. E. de Andrada»

21.9.15

Cada uma das palavras que usamos

As palavras que usamos são sedimentos de vidas desconhecidas, de histórias não contadas, de viagens venturosas, de civilizações terminadas.