Quanto mais entendemos, mais amamos; quanto mais amamos, mais entendemos. Entender e amar são duas faces da mesma realidade. A mente que entende é a mente que ama.
[A partir de Tich Nhat Hahn.]
14.2.20
13.2.20
Quadrante da inexistência
«E quando for assim, pergunte: que é feito daquela senhora de óculos», aconselha-me Dona Sandra, que me serve o melhor gin do mundo ao fim da tarde, no bar, quando lhe disse que senti falta dela nas últimas semanas, que até tive cuidados, por onde andaria? E, de facto, não perguntei a outros, só a ela, e foi agora. (Brilharam-me os olhos de lhe brilharem os olhos, quando lho disse.) Hoje senti falta, mais ainda do que ontem, ou de anteontem, também de Dona Vera, que me ajudava a manter o barco no rumo calculado com sextante e que foi, há umas semanas, como agora se anuncia nos pregões modernos, «abraçar um novo desafio.» Bem lhe mando cumprimentos pelo marido, mas por recato, ou pudor, nunca lhe disse para lhe levar novas da falta que cá faz. Protelo o inevitável. Pois quanto à leitora, decidi não protelar as palavras, que não podem ficar tolhidas, que exigem ser livres como gaivotas: faz cá falta a leitora, e não pouca, pois que é para ela que estas frases são aqui alinhadas. Não fora a leitora, que seria destas congeminações, e daquele que as comete amiúde? Em que quadrante da inexistência perdurariam?
Alfa e ómega
A fonte mais perene de agravos do meu eu atual é o meu anterior, em geral por subestimar o quão incompreensíveis e obscuras as suas decisões apareceriam a um homem mais descontextualizado, mais velho, mais impaciente para com o não essencial, ou seja, a mim.
E para ti?
Infinitamente existiu Beatriz para Dante. Dante, muito pouco, talvez nada, para Beatriz.
[Jorge Luis Borges]
[Jorge Luis Borges]
12.2.20
Frágil
As coisas mais frágeis têm uma extraordinária capacidade de persistir.
[Antonio Muñoz Molina, La noche de los tiempos]
[Antonio Muñoz Molina, La noche de los tiempos]
11.2.20
Fiel do culto
Assim que me viu entrar, Dona Yara tirou o café como de costume, célere, graciosa. E logo hoje eu não queria café, já vinha com ele tomado. Como dizer que não, cortar a corrente, rejeitar aquilo que busco, fiel do culto ao início de cada dia? Assim, aqui estou eu a tomar a segunda dose no espaço de uma hora, mais desperto do que voltarei a estar em qualquer hora do dia de hoje. Sim, porque o mafarrico deve ter um lugar qualquer guardado para quem deixa uma chávena de bom café ao abandono, e esse lugar eu, leitora, passo a outrem, não creio que seja para mim.
10.2.20
Cada vez mais nova
Perguntei a Dona Yara: «Já tem uns três anos a sua menina, não tem Dona Yara?» «E três meses», confirmou ela, com aquela fala lá dela que atravessou o equador. Ora, parece que foi, vá lá, anteontem, que por esta página branca se começou a falar de pequena Soraia. Não havemos nós de estar velhos? Quero dizer, falo por mim, em plural majestático, que a leitora está aí, sempre bem conservada, cada vez mais nova, se me permite a ousadia.
9.2.20
Cheia de borboletas

Rosie: Um dia vais conhecer alguém especial.
Jojo: Porque é que toda a gente me diz sempre isso?
Rosie: Quem mais te diz isso?
Jojo: Todos. De qualquer forma, é uma ideia estúpida.
Rosie: Tu é que és estúpido. O amor é a coisa mais forte do mundo.
Jojo: Eu acho que vais descobrir que o metal é a coisa mais forte do mundo, seguido de perto pela dinamite, e depois pelos músculos. Além disso, eu nem o reconheceria se o visse.
Rosie: Surpresa, surpresa, os teus atacadores estão desatados de novo.
[Rosie aperta-lhe os atacadores]
Rosie: Oh, Jojo, saberás quando acontecer. Senti-lo-ás, é uma dor.
Jojo: No meu coração, aposto.
Rosie: Na tua barriga, como se estivesse cheia de borboletas.
Jojo: Yuk.
Frankenpão
Evidentemente recusei. Iria lá – logo eu, leitora – aceitar a oferta de parte de outro pão para completar o canto que a máquina de fatiar comeu?
8.2.20
Observação: Todos os livros do Rubem Alves devem ser recolhidos.
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E no fim (ou de permeio), eles virão sempre atrás dos livros, e dos que os escrevem, e dos que os divulgam, porque a sua prescrição para as vidas dos outros alimenta-se no medo, e os livros são a derradeira forma de resistência.
[Proposta de recolha de livros do estado da Rondônia, no Brasil, entretanto suspensa após clamor público, onde o governador, Marcos Rocha, ascendeu ao lugar nas eleições de 2018.]
Boss, Hugo Boss
Também a forma como segurava na mão alvíssima dela evidenciava um poder, um píncaro, mais um dos muitos que terá capturado na sua já não curta vida.
7.2.20
6.2.20
Como é cansativo para mim estar sem ti.
Meu querido e inesquecível professor, salvador e mentor.
Como é cansativo para mim estar sem ti. A minha alma está calma e só posso descansar quando tu, meu professor, estás sentado ao meu lado, e eu beijo as tuas mãos e coloco a minha cabeça sobre os teus ombros abençoados. Oh, como as coisas são fáceis para mim, então. Então só desejo uma coisa -- adormecer, adormecer para sempre nos teus ombros, no teu abraço. Oh, que felicidade é apenas sentir a tua presença perto de mim. Onde estás? Para onde voaste? É tão difícil para mim, fica tão ansioso o meu coração... Mas, meu amado mentor, não digas uma palavra a Anya [Vyrubova, amiga de Alexandra] sobre os meus sofrimentos sem ti. Anya é boa, é gentil, ama-me, mas não lhe fales da minha tristeza. Logo estarás aqui perto de mim? Vem em breve. Estou à tua espera e estou miserável sem ti. Dá-me a tua bênção sagrada e eu beijo as tuas mãos abençoadas.
Amando-te por todos os tempos. Mamã...
[De Alexandra para Rasputine.]
Como é cansativo para mim estar sem ti. A minha alma está calma e só posso descansar quando tu, meu professor, estás sentado ao meu lado, e eu beijo as tuas mãos e coloco a minha cabeça sobre os teus ombros abençoados. Oh, como as coisas são fáceis para mim, então. Então só desejo uma coisa -- adormecer, adormecer para sempre nos teus ombros, no teu abraço. Oh, que felicidade é apenas sentir a tua presença perto de mim. Onde estás? Para onde voaste? É tão difícil para mim, fica tão ansioso o meu coração... Mas, meu amado mentor, não digas uma palavra a Anya [Vyrubova, amiga de Alexandra] sobre os meus sofrimentos sem ti. Anya é boa, é gentil, ama-me, mas não lhe fales da minha tristeza. Logo estarás aqui perto de mim? Vem em breve. Estou à tua espera e estou miserável sem ti. Dá-me a tua bênção sagrada e eu beijo as tuas mãos abençoadas.
Amando-te por todos os tempos. Mamã...
[De Alexandra para Rasputine.]
5.2.20
O pulsar do coração
Por vezes, embora raras, depois de dedicados de alma e coração, percebemos que se não nos veem a alma, ao menos sentem-nos o pulsar do coração. E é bom.
4.2.20
Zero à direita
Fora eu agora intercetado, leitora, e não haveria zero à direita. Apenas um dígito próximo de zero, mas mais vertical do que redondo, a que se seguiriam os meus encómios ao agente da autoridade sobre como um bom Rioja combina de modo perfeito com uma tarde que podia ter sido toldada de cinzento, mas onde se desvendou, afinal, um sol radioso.
2.2.20
Do calendário do viticultor
Fevereiro: Adianta-se, para terminar, a poda e plantação nas terras secas. Começa a cava onde se não puder lavrar; continua-se a preparar a madeira da empa; começa a enxertia nas regiões quentes com castas que rebentam cedo e a aplicação de adubos químicos. É tempo de colar e engarrafar os vinhos. As vasilhas devem ser vigiadas, sobretudo se o tempo aquecer.
Por S. Matias, começam as enxertias.
Por S. Matias, começam as enxertias.

