13.6.18

Ulysses

Num artigo do New York Times leio que o Ulysses de Joyce demora vinte e quatro horas a ser lido, em voz alta. Jack Hitt, o autor do artigo, quase ficou em êxtase quando teve tal epifania: «O decorrer do tempo na nossa cabeça é o mesmo que o decorrer do tempo no livro.» É bem visto, e faz sentido: afinal, vinte e quatro são as horas lá contadas da vida de Leopold Bloom, nas deambulações numa Dublin que, segundo Joyce, podia ser reconstruída a partir do livro, caso desaparecesse da Terra. O leitor avisado, munido de um relógio que faça contagem decrescente, pode sempre aferir quanto tempo lhe falta para chegar ao ponto final, final, que devia ser de tamanho desmesurado, de uma moeda, mas tem perdido tinta ao longo dos anos, até chegar a ser um ponto igual aos outros (mas mais negro, afirmam alguns editores). Suspeito que a contagem resulta apenas na versão original, tenho dúvidas nas traduções, particularmente na portuguesa, língua não bafejada pela concisão. Bloom iniciou a volta a dezasseis de junho, em mil novecentos e quatro; cento e catorze anos depois, seria boa oportunidade para passar vinte e quatro horas na companhia dele, de Molly e até de Harry Thrift, um ciclista que pedalava por Dublin por esses tempos. Na próxima sexta, poderia anunciar, com precisão: «Já só me faltam dois dias para acabar de ler Ulysses no original.» Seria uma mentira tão piedosa que pareceria, até, bonita.