1.8.18
Confissões
Preparava-me para sair com o livro, quando o outro cliente abriu a porta da rua e entrou. «Não quer um saquinho?» perguntava-me então o alfarrabista. Pois que sim, dá jeito, e ele enfiou a obra, densa mas não espessa, que suspeito nunca ter sido lida, num saco de papel que daria para transportar a Bíblia na tradução de Frederico Lourenço, na edição integral, quando estiver completa. O outro cliente deambulava entretanto, em busca de obra onde prender os olhos e as mãos. «Precisa de ajuda?», ofereceu-se o dono da loja. E eu nem parei sequer no caminho para a porta, para não ouvir um bocadinho que fosse da resposta. Nada é mais íntimo num homem, nada mais revelador do estado da sua alma, que a busca de um livro esgotado. Um alfarrabista é um confessor, ainda que não ordenado. Ora eu preferia não estar presente nas minhas próprias confissões, quando mais presenciar as alheias.