14.9.18
Agua caliente
Depois de muitas horas de agonia e de ossos desconjuntados, o autocarro apocalíptico deixou-me em Gobernador Gregores, o derradeiro enclave de civilização antes do Lago Cardiel, na Patagónia. Quando saí, o vento, que transportava navalhas a eito, enrodilhou-se-me nos ossos, e senti-me a andar como se tolhido por ligaduras em todo o corpo, acabado de sair de algum sarcófago milenar. O meu reino por um banho, pensei. Felizmente, a pensão, que concluí ser um albergue, quando lá cheguei, estava perto. Mas logo à porta, as expectativas goraram-se, como as de Dante à entrada do Inferno. Alguém, tão irónico como pragmático, tinha ensinado um papagaio, que se empoleirava ao lado do enfastiado rececionista, a dar as piores notícias aos desprevenidos hóspedes. A tiritar no chuveiro, mais tarde, ainda ouvia o safado a repetir-se, com nítido gozo no papagueio adunco: «No hay agua caliente!»