25.11.18

Infusão galinácea

Arrastei-me, a tremer e a bocejar, até à quitanda de Seu Januário, que tem uma barba à Lincoln e usa suspensórios para segurar a sua delgada estrutura de caniço às calças. Curta, a minha lista de compras, que a memória para mais não dava: meia galinha, gengibre e cebolinho. Gengibre, Seu vendeu-me a preço de pepita de ouro: «Vem de muito longe, e não vem a nado, paga o transporte por paquete pelo grande oceano.» A galinha é da criação de Dona Adozinda, com quem Seu Januário, homem regrado, mantém relações comerciais ao domingo e à quarta. Cebolinho, nem vê-lo, «terá que ser cebola mesmo», diz Seu. Não é o mesmo, mas não estou em condições de argumentar. Seu Januário vê as minhas mãos a tremer e quer-me a milhas da quitanda depressa. É véspera de visita a Dona Adozinda e altura inadequada para uma gripe, se é que há alguma adequada.

Meti tudo na panela, com a volumetria de um poço, que pedi emprestada a Dona Consolação, onde ela faz o jantar quando tem os filhos todos de visita, e deixei a ferver por horas, como aprendi com Li Pou chinês errante primeiro no Yangtzé, depois no mundo, e que conheci na Brindisi de Virgílio. Voltei para a cama e adormeci. Às três da manhã acordei e fui ver o caldo onde a galinha se fundiu e, a essa hora, jantei  litros de infusão galinácea. Com o estômago e a alma aconchegados, voltei a dormir, até fazer vinte quatro horas desde que me tinha deitado, antes do opíparo jantar. A casa cheirava a galinha, eu também, abri a janela para deixar entrar o aroma da ilha, olhei o sol e, pela primeira vez em dois dias, não tremi ao ar fresco da rua, nem bocejei como se estivesse a assistir ao «Prelúdio ao Entardecer de um Fauno». A esta hora, estaria Seu Januário em negociações com Dona Adozinda, a quitanda fechada. Sem nada para comer, pensei que a fome também cura. E com a barriga a dar horas, desci até à praia, acabado de nascer.

[Dos «Diários», de Victor de Vere.]