24.11.18

Mosto

Pelo que me recordo do sonho, durou toda a noite, sempre o mesmo, recorrente, como se eu fosse um hamster condenado a correr numa roda chiante. Correr faz sede, e por isso aquela vontade de beber a meio da noite, água que é a bebida que mais se parece com o gin, este interdito se, com tal carga de antipiréticos, não quisesse ganhar asas e voar pela janela, em alucinações onde surgiriam, imaculadas e impávidas, raparigas de olhos de caleidoscópio.

A mão treme a escrever estas linhas com o lápis gasto, cada letra uma poça de grafite. O chá de limão arrefece ao lado com restos de mel coalhado com aspeto de desistente. Todos os músculos do meu corpo parecem ter sido pisado num lagar, por pés calosos determinados a extrair de mim todo o mosto que vive sob a película da minha pele. Abro a janela, para que o ar cálido da ilha à noite, afague os micróbios que tanto me separam do meu eu, como se estivesse já recolhido em cubas de aço inoxidável, pronto para a fermentação.

E é a fermentar que me sinto. A minha esperança é, quando parar de tremer, quando o meu mosto se transmutar em líquido menos turvo, possa ser, enfim, de boa colheita. Para alguma coisa há-de servir a videira resfriada em que o meu corpo se transformou. Já não sei se este foi o sonho que me assombrou a noite, mas podia muito bem ter sido.

[Dos «Diários», de Victor de Vere.]