16.12.18
Como a teia de aranha
O alfarrabista olha para a rua através da montra, enquanto eu procuro nas estantes um dos obscuros livros de Agustina que ainda me faltam, ou algum daqueles de Ramos Rosa de que não foram feitas edições de mais do que uma centena de exemplares. Mas o olhar dele é mais atento do que o meu, mais distante também, e depressa percebo que segue o casaco comprido que anda em círculo do lado de fora da montra, enquanto a dona fala ao telefone, com um voltear irado da outra mão e voz áspera que ouço aqui. «É a arquiteta», diz. «A discutir com o namorado, como de costume», oferece de seguida a explicação, quase num sussurro, sem que eu lha tenha pedido. Na loja meticulosamente limpa, no canto da estante mais perto da secretária onde o alfarrabista se senta, noto, pela primeira vez, uma teia de aranha. Só pode estar ali porque ele a quer, deliberadamente mantida, contra as investidas rigorosas de limpeza da empregada. A arquiteta parece prestes a atirar o telefone, mas contém-se, guarda-o no bolso do casaco, joga os braços ao ar e, antes de regressar ao atelier, na porta ao lado, cola as mãos em concha ao vidro e acena ao alfarrabista. Ele devolve-lhe o aceno, com a mão flutuante como um «zeppelin». Eu continuo fascinado pela teia de aranha e ele nota. «Os livros», diz-me, «são reservas de paciência. Como essa teia.» E, com a lentidão determinada da inquilina da estante, sai da secretária e vai ao até ao vidro. Do outro lado, esteve a arquiteta e as marcas da mão, efémeras, ainda lá estão. Os livros e a teia estão deste lado, perenes, como ele.