17.12.18
Dez graus pela manhã
Calhou estar hoje de manhã na esplanada, a aquecer as mãos na chávena do café, tentando derrotar os dez graus que me tolhiam o pensamento, quando a arquiteta chegou de motorizada com o namorado, provindos do lado da minha distração. Pararam junto à porta do atelier, e com um gesto ágil ela levantou-se, tirou o capacete e despediu-se dele num beijo longo como o perímetro de um pires. O alfarrabista estava frente à montra recém-composta, quando a arquiteta lhe acenou e ele respondeu com a sua mão em «zeppelin» flutuante. O namorado dela ia já longe, a minha chávena estava vazia, a arquiteta entrava no atelier e o alfarrabista ficava ainda na rua a mirar a montra dele e a porta ao lado. Vestido todo de preto, parecia o gato que, na janela do segundo andar, olhava a rua com o ar meticuloso daqueles para quem a visão não se mede apenas em metros, mas em semanas, meses, anos.