18.12.18
Pelos olhos do gato
A aluna de Dona Maria Bárbara chega a meio da manhã, com mochila ao ombro e ansiedade na expressão e, pouco depois, ouvem-se na rua os fiapos das notas titubeantes do piano, escalas esforçadas, peças de iniciação, voos mais ousados seguidos de quedas bruscas e ressurreições. Por vezes, há longos hiatos entre as escalas e, nesses, consegue-se distinguir a voz pautada da professora, pesada como duas mãos abertas carregando sobre os ombros da aprendiz. Mais tarde, quando esta sai da porta ao lado da loja do alfarrabista, a ansiedade dá lugar ao alívio, não diferente do de quem é salvo do oceano, do lado de lá do oxigénio já tão longínquo. O gato preto à janela do segundo andar assinala as horas das aulas de Dona Maria Bárbara: enquanto decorrem, os olhos claros e frios do felino percorrem a rua, em busca de lugar de poiso para a sua atenção de predador de histórias. Contaram-me que, quando o alfarrabista pai, antes de passar a loja ao cuidado do filho e se retirar em definitivo, cruzava a porta ao lado, o gato também vinha postar-se à janela, e assim ficava de sentinela à vida que decorria cá em baixo até o visitante voltar à luz do crepúsculo. Não sei, nunca vi, mas não me custa acreditar que o gato preto exija atenção plena da dona. Não a podendo ter, é o resto do mundo que ganha a atenção plena dele.