1.1.19

A rua

No restaurante, as mesas da esplanada não estão postas para almoço e já passa das onze da manhã. O café está tão fechado como o cofre do banco e hoje tive que me resignar à bebida saída da minha máquina com previsibilidade  encapsulada. Na porta vidrada do alfarrabista há um aviso aos estimados clientes a indicar o regresso dia sete de janeiro. Só eu sei onde ele está por estes dias, mas jurei segredo. Na papelaria do Senhor Inácio, a nota tipografada é concisa: Fechado. Ai daqueles a quem acabar a tinta azul cobalto: a urgência da escrita terá que aguardar um dia mais. Ontem, a meio da tarde, a motorizada do namorado da arquiteta estacou frente à porta do atelier com rugido de fera atemorizada. Ela saiu de sandálias de agulha visíveis debaixo do longo casaco preto, colocou o capacete, agarrou-o como a uma boia de salvação, e antes que o ruído da partida tivesse tempo de me chegar aos ouvidos, deixei de os ver ao fundo da rua. O gato à janela observa a rua, com minúcia de caçador. Não se ouve o piano de Dona Maria Bárbara, mas na janela que lhe pertence, e por detrás do gato, vislumbro os olhinhos vivazes e rápidos do Senhor Inácio, da cor da tinta das escritas. É manhã de primeiro de janeiro, a rua está vazia, o caminho livre. A porta da rua abre-se e um vulto de sobretudo e chapéu e embuçado no cachecol, sai em passinhos tão céleres como o olhar azul. Vê-me, hesita, mas acena-me. Eu devolvo o aceno e junto-lhe os votos de bom ano. O Senhor Inácio funde-se na pouca sombra do dia claríssimo e desaparece como vapor de água. O gato também já não está à janela: pode voltar a ter a atenção plena e merecida da sua hospedeira, e não desperdiça nem um minuto.