23.1.19
Caderno diário
Não é que eu não acorde cedo, em alvoroço, de ouvido esperançado na direção da janela onde dantes cantava o pássaro. Ou que não prolongue a leitura à noite, melhor, que leia antes com a audição, filtrando cada rumor em busca de uma nota, por singela que seja, que me soaria como uma salva no meio do breu. Mas nem um sinal, nem um som, senão o doce roçagar das folhas vazias. Há quase uma semana que dele nada sei, que não ouço trinado, nem um pio. Bem sei que o pássaro é livre de voar, é livre de não cantar, é livre de demandar beirais de outrem. Mas a minha razão é inábil para convencer o meu coração. O que sabemos não é escala para o que ansiamos. Num devaneio, iludo-me: talvez não ande longe, talvez dormite entre um tronco e um ramo resguardado, a um salto da minha atenção. Ou talvez repouse algures, apenas, do ofício de cantar. Soubesse eu onde encontrar garrafas com asas, deitaria uma ao ar, esperando que vogasse ao sabor dos ventos, até entregar a mensagem, com o timbre do meu coração, ao canoro. Assim a lesse ele, ai de mim. Agora, só sonhos tenho para enviar, enquanto guardo as esperanças e inquietações todas para mim. E tenho um ouvido tão atento que, assim o ouvisse eu, assim tivesse dele o sinal, ainda que não voasse ele para o beiral, era eu que até ele voaria.