2.1.19
O terceiro andamento
A arquiteta sai do atelier em passo determinado, atravessa a rua numa diagonal traçada a régua e entra no café, sombria como um anjo da madrugada. O gorro enfiado até às sobrancelhas, as mãos ocultas por luvas pretas, o casaco longo, ao rés dos tornozelos, a cara de expressão cerrada, poderia fazer parte de alguma missão secreta, mas vem só pedir: «Um café por favor, Ninha, com cheirinho.» Dona Juliana alcança a garrafa de J&B e aromatiza generosamente o café. De onde me sento, junto à porta, parece-me ouvir o piano virtuoso de Dona Maria Bárbara enovelado na segunda sonata de Schumann, esse tresloucado. Do gato, nem reflexo na janela: também ele é schumanniaco. O Senhor Inácio da papelaria conversa com Dona Lídia da frutaria, vizinha de porta com porta: tarde amena para o negócio. O alfarrabista continua ausente em paradeiro de que apenas eu tenho notícia. Com a falta de cafeína liquidada, a arquiteta retira o telefone do bolso e inicia a chamada logo que cruza a porta. A voz sobe em crescendo como o scherzo do terceiro andamento. A meio da rua, já a fúria está livre por inteiro, com toda a amplitude de asas que apenas as águias e a raiva possuem. A voz chega aqui, sobrepondo-se à melodia do piano. Dona Juliana olha-me, único cliente agora, e diz: «Amor é fogo, menino.» Menino, não sou eu: é genérico, adenda de terras de outros continentes. Mas o mal de amor é universal, como o fogo. O poeta dizia que não se vê, o amor. Talvez não, mas ouve-se – com mais distinto furor que o scherzo de uma sonata para piano. Isto o poeta não disse, mas apenas porque no tempo dele ainda não havia scherzi, nem pianos.