14.1.19
Vilar de Perdizes
O alfarrabista já tem porta aberta: afinal o encerramento demorou mais do que o anunciado pelo papel, por razões que só eu sei e ele sabe que eu guardo para mim. Mas os livros usados não expiram, a virtude redentora dos colecionadores é a paciência, a demora dele é pisar um risco sem risco. Enquanto se aquece ao sol que lhe alonga a face pálida, a arquiteta chega, de passageira e de semblante cerrado, na motorizada: ela acena-lhe, o namorado ignora-o. O doutor Videira, ao meu lado na mesa do café, que olha na mesma direção que eu, a deles, diz-me: «O homem da mota ainda não sabe, mas o coração da arquiteta também bate por livros já lidos. Daqui a duas semanas, já não será ele a trazê-la.» O doutor Videira olha para o fundo da chávena, como se nele estivesse escrito, e fosse decifrável, o destino. O alfarrabista já entrou, está a atender um cliente, um dos colecionadores que lá permanecem horas em adoração, como num templo. A arquiteta ficou na rua a fumar, enquanto a mota sumia, engolida pelo fim da rua. Dois andares acima, o gato de Dona Maria Bárbara meneia a cabeça, ao ritmo dos compassos de uma transcrição de Wagner para piano, que chegam atenuados aqui. O doutor Videira vai todos os anos em setembro a Vilar de Perdizes, aprender com os melhores. Eu não sei o que o doutor lê do futuro, ou como o lê, mas não apostava contra ele, que me parece o mesmo que zombar do inevitável. A arquiteta acaba o cigarro e fica a olhar para a montra dos livros usados, como se quisesse rematar a frase do adivinho, meu vizinho. Depois, bate os tacões como um general prussiano, e entra na porta do atelier com passo triunfal. As grandes decisões são como os lagos: não é pela calmaria da superfície que se lhes mede a profundidade.