2.2.19

A rede (III)

A aliança entre as casas de Guerre e de Role foi selada pelo casamento de Martin e Bertrande, ambos ainda com catorze anos. O casamento não foi consumado na noite de núpcias e, na verdade, não o seria nos oito anos seguintes, tendo que aguardar uma receita milagrosa que consistiu em quatro missas e uns bolos especiais, que permitiram ao noivo ultrapassar finalmente a condição que tanto o humilhava perante a família da noiva e toda a aldeia de Artigat. Durante esses longos anos, Bertrande opôs-se à anulação do casamento – tinha-se afeiçoado às quatro irmãs do marido e com elas passou os melhores dias da sua juventude, longe de quaisquer obrigações no leito conjugal. Após a consumação, Bertrande engravidou de imediato; o nascimento do filho e um desentendimento com o pai por causa de uns alqueires de trigo fizeram transbordar a inquietação de Martin. Um dia, fugiu. Deixou para trás tudo o que tinha, regressou ao País Basco da sua origem, tornou-se soldado ao serviço de Filipe II de Espanha e I de Portugal. Anos mais tarde, antes do seu regresso, as suas irmãs jurariam que Arnaud du Tilh, era, de facto, ele. Elas, e muitos dos que o tinham conhecido ao longo dos anos antes do casamento e os seguintes, os do opróbrio que a impotência lhe tinha imposto.