15.3.19
Caderno diário
Assalta-me a indecisão logo ao alvorecer: será o pássaro do beiral, ou não? Reconheço os trinados ou, algures na penumbra do sono, parece-me reconhecê-los, mas estão distantes, esmaecidos, como se tivessem viajado pela canseira de uma linha de telefone centenária. A ser o pássaro, abrigou-se na árvore em frente à janela, frondosa, ampla, acolhedora. Ensaiará o regresso ao beiral? Ou, uma vez encontrado um ramo amplo e confortável, musicado pelo doce roçagar da folhagem ao vento, deixar-se-á ficar, abandonando o beiral expectante mas desvestido? Que apelo pode ter um beiral assim batido a sol e vento, pleno de ângulos e superfícies rugosas, face a uma tão aconchegante árvore, tão repleta de suaves balouços, tão amena a vistas amplas? E como é que se transforma um canto de beiral numa serenata de beiral, leitora?