18.4.19

Missiva sobre a abnegação da quadra

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto com a letra elegante de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College em Oxford, atualmente a viver intramuros na casa d’Andrada, no cálido embalo dos braços da dulcíssima Orchidée.

Meu muito prezado amigo,

Espero que este o encontre num estado que possa considerar moderadamente saudável, o que quer que tal palavra signifique para quem não come proteína por onde tenha chegado sangue bombeado por um coração selvagem. Homem, estou em crer que, com tais usos, o seu próprio motor deve estar mais estaladiço que uma palha seca no deserto de Atacama.

Ora o meu prezado sabe que é, «soi disant», para mim como o filho que eu nunca quis ter e, praticamente não durmo mais que hora e meia na minha sesta pelas ralações com o seu bem-estar. Após insistência da minha consultora de temas de felicidade, decidi contribuir para trazer uma centelha de rejuvenescimento a esse seu semblante bocagiano, absorto, novecentista. Estava eu a ponderar passar esta quadra na costa amalfitana, celebrando a vida embrenhado nos braços da dulcíssima Orchidée, quando esta, num acto de abnegação digna dos méritos de um Nobel da Paz, me fez abdicar da viagem para o salvar do terrível destino de passar a Páscoa encerrado nalguma biblioteca poeirenta, sobrevivendo de migas de alho biológico com bagas de goji estufadas. «Pauvre, pauvre J. affamé, maigre comme une canne d'Inde...»

Missão de salvamento, portanto, leva-nos a postergar a viagem. Oh, a bondade deste perfeito anjo que enche de luz os meus dias e de fulgor as minhas noites. Por isso, meu amigo, e por insistência da piedosa Orchidée que, como sabe recebeu o baptismo e a crisma em Notre Dame, da concha do próprio arcebispo André Vingt-Trois, está convidado, não, intimado, a deslocar-se nesta quadra sagrada até à casa d’Andrada (perdõe a rima), onde o aguarda pensão completa, regeneradoras de células liofilizadas, arenosas até, com alimento adequado a quem se encontra em estado mais desnutrido do que uma bomba de combustível em dia de greve de motoristas.

O diligente Reboredo que, como sabe é especialista em culinária levantina, afadiga-se já de volta de pratos à base de ervas com nomes como (um minuto, enquanto mos sopram aqui ao lado com hálito com perfume de orquídea selvagem): Baba Ganoush, Falafel, Hummus. Até pão pita e chá de menta açucarado, para a experiência ser completa. Caso lhe apeteça saltar a cerca, a mesa dos crescidos estará adornada, entre outras iguarias, com perdiz à Convento de Alcântara, Barriga de Freira e pudim Abade de Priscos, pratos que, já pelo seu nome, já por constituírem verdadeiros actos de adoração, evocam a santidade da semana. A sua anuência fará a felicidade de uma santinha, que aqui ao meu lado reza agora mesmo, enviando mensagens para Nossa Senhora, sua padroeira, pela saúde do meu prezado: «Pauvre, pauvre J. tellement fasciné par les livres qu'il n'a pas le temps de manger».

Faça-se acompanhar de um «nécessaire» porque o convite é para múltiplas noites. Orchidée, sempre previdente, já encomendou em linha uns pijamas de seda, com carneirinhos saltitantes de Shetland: «Oh, il va si bien dormir avec ce petit pyjama, le pauvre petit J.»

Aceite um abraço deste que muito o estima,

J. Eustáquio de Andrada