O pássaro voltou a ausentar-se e desta vez nem do beiral nem da frondosa árvore em frente surge qualquer trinado para riscar o silêncio denso do amanhecer. Acordo por moto-próprio às horas a que os sonhos me abandonam, sem o auxílio sempre inesperado, sempre esperado, do canoro. Poderia ser um descanso deitar-me sabendo que não serei despertado a horas aleatórias, por melodias exuberantes provindas do lado certo da janela. Na verdade, é um desassossego. Quem disse ao canoro que eu não queria ser acordado a desoras, ainda que a plenitude matinal seja cortada cerce pelo entusiasmo do chilreante? Quem diz ao cantante estas mesmas palavras, a ver se ele, ouvindo-as, me aquieta, desaquietando-me?